Ttulo: Flores para o Deus do Amor.
Autor: Barbara Cartland.
Ttulo original: Flowers FOR THE GOD OF LOVE.
Dados da Edio: Editora Edibolso, So Paulo, 1980.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores Cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de pgina: rodap.
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flores para o deus do amor

Ttulo original: Flowers FOR THE GOD OF LOVE
Copiright: (c) CARTLAND PROMOTIONS 1978
Traduo: T. MOREIRA
Copyright para a lngua portuguesa: 1980 EDITORA EDIBOLSO LTDA. - So Paulo
Uma mpresa do GRUPO ABRIL

NOTA DA AUTORA
A histria de Rex e Quenella se passa na poca em que a ndia, ento sob dominao inglesa, era palco de grandes convulses internas, instigadas por agentes do czar
da Rssia. Naque tempo, os russos dominavam o Afeganisto, e os chineses, o Tibete. A ndia estava nos planos de expanso da Rssia, que comeou a infiltrar espies
pela fronteira noroeste e, com a ajuda da China, tambm pela fronteira tibetana. A "guerra fria" que passou a ser travada em territrio indiano era chamada pelos
ingleses de "O Grande Jogo". Tratava-se de uma rede de espionagem to complicada que, com exceo dos principais chefes, nenhum de seus membros conhecia a identidade
dos outros. O "Grande Jogo" terminou em 1903, quando a Inglaterra se aliou ao Japo, contra a Rssia, alterando a balana de poder na sia em favor dos britnicos.
 neste cenrio de intrigas e suspense que se desenrola o presente
romance.


CAPTULO I
1900

O coche de aluguel estacionou na frente do ndia Office e um homem de rosto bronzeado pelo sol desceu e pagou o chofer.
Subindo as escadas, encontrou a porta aberta e um jovem, com toda a aparncia de um diplomata recm-formado, precipitou-se para ele, com as mos estendidas.
- Bem-vindo ao lar, major Daviot! O chefe est esperando pelo senhor e, devo dizer, impacientemente.
Sorria, enquanto falava, e era impossvel esconder a admirao estampada em seus olhos.
-  muito bom estar de volta - respondeu Rex Daviot.
Foram caminhando pelos amplos corredores, decorados com retratos de governadores-gerais e mapas dos rios e cidades indianos.
O ndia Office no tinha uma aparncia festiva. Era velho, imponente
e sombrio. com sua vasta biblioteca, sua imensa experincia acumulada tinha mais informaes sobre a ndia do que qualquer outro rgo governamental sobre qualquer
outro pas.
- Como estava a ndia, quando a deixou? - perguntou o jovem,
- Muito quente!
- Estvamos todos excitados e curiosos com sua ltima proeza.
- Espero que no!
- Convenha, major, que  impossvel impedir as pessoas de especularem, ainda mais se elas no tm muito o que fazer. Asseguro-lhe que fizemos o possvel para que
tudo continuasse em segredo.
- Veremos.
Rex Daviot sabia que os segredos tm uma misteriosa maneira de transpirar em lugares inesperados e, na ndia, geralmente assuntos confidenciais eram discutidos nos
bazares, antes mesmo que o comandanteem-chefe tivesse conhecimento deles.
Alcanaram um par de imensas portas de mogno e o jovem as abriu para anunciar, quase com uma nota de triunfo na voz:
- Major Rex Daviot, sir!
Do outro lado da imensa sala, um homem estava sentado a uma escrivaninha.
Levantou-se, com uma expresso de prazer, e Rex Daviot caminho em sua direo para cumpriment-lo.
Encontraram-se no meio da sala e sir Terence O Kerry, chefe do ndH Office, disse:
- Graas a Deus, voc voltou so e salvo! Tinha medo de que algo pudesse impedi-lo.
O major riu.
- O que o senhor est realmente querendo dizer,  que est surpreso, por eu no ter sido assassinado ou meu disfarce no ter sido descoberto.
- Exatamente.
- Houve vrios momentos, no muito confortveis, admito. Mas aqui estou. O senhor recebeu meu relatrio?
- Eu o achei to inacreditvel e absorvente, que pensei estar lendo um daqueles livros de aventura de quando era garoto.

- Fico contente que tenha gostado - disse Rex Daviot, com um brilho nos olhos.
Eram olhos cinzentos, uma cor perfeita para seu disfarce. Um tom mais claro poderia tra-lo facilmente.
- Tenho muito a lhe falar, Rex. Sente-se e deixe-me comear pelo incio.
O major olhou para ele, um pouco surpreso, mas obedeceu. Escolheu uma das poltronas de couro verde ao lado da lareira. Sir Terence sentou-se em outra e disse, srio:
- No preciso dizer o quanto estamos agradecidos, e que suas descobertas, nesta ltima misso, tero repercusso a longo prazo.
- Espero que os senhores tenham tido o cuidado de discutir esse assunto com poucas pessoas. Quero voltar, e na ndia, at a areia tem ouvidos.
- J tomou parte em muitas outras misses; assim, deve esperar que as pessoas o olhem como uma espcie de heri.
- No desejo nada disso!
- Bem, a rainha est extasiada com o que voc conseguiu!
- Sua Majestade  muito gentil, mas, francamente, pretendo voltar o mais cedo possvel e continuar o trabalho. H muito ainda que fazer. - Ningum sabe disso melhor
do que eu - respondeu Sir Terence -, mas, no momento, tenho outros planos para voc.
Rex Daviot franziu rapidamente o cenho e seus olhos cinzentos pareceram tornar-se de ao.
- Outros planos?
-  sobre isso que quero lhe falar.
- Estou ouvindo, mas espero que no me impeam de voltar para a fronteira noroeste.
- No impediro. S que, agora, ir para l com outro encargo.
- O que quer dizer?
- A rainha deseja nome-lo vice-governador das provncias do noroeste!
Sir Terence falou-lhe calmamente, mas o efeito sobre o homem, sentado  sua frente, foi quase como o de uma bomba explodindo a seus ps.
- Vice-governador? - repetiu, com um olhar de incredulidade.

- Sua Majestade acha que, agora, esse  o lugar certo para voc, e concordo com ela.
- Por qu? Por qu?
- Porque voc sabe, tanto quanto eu, que no pode continuar para sempre arriscando sua vida. Seu sucesso tem sido fantstico at agora,
mas. . .
- Pensei que isso era uma tima razo para continuar como estou.
- Preciso dizer-lhe - explicou sir Terence -, que essa nomeao tem a aprovao do vice-rei.
- Ele devia saber que consigo dar conta das misses com muito mais facilidade, para sua administrao, do que qualquer outra pessoa.
- Ele est certo disso, mas, ao mesmo tempo, o lugar de vice-governador est vago, devido a trgicas circunstncias.
Rex Daviot calou-se.
Sabia quais eram essas trgicas circunstncias, e sabia tambm que o oferecimento daquele posto no chegava a ser exatamente um presente.
Ao mesmo tempo, algo dentro dele se rebelava contra a formalidade, o protocolo, e tambm contra a autoridade que sua nova posio iria lhe trazer.
Ningum melhor do que ele estava ciente do quanto era importante ter o homem certo no Palcio do Governo, no momento em que as rebelies nas fronteiras da ndia
estavam crescendo e os nativos estavam sendo treinados continuamente e muitas vezes com sucesso pelos russos.
Durante sua viagem de volta  Inglaterra, ficara pensando quem poderia ser nomeado para as provncias do noroeste, mas nem por um segundo suspeitara de que seria
ele mesmo.
Naquele momento, sir Terence dizia:
- Quero acrescentar que, se voc aceitar a posio, Sua Majestade pretende torn-lo um par do reino.
- Um par? Pelo amor de Deus, por qu?
- Por vrias razes - respondeu sir Terence, com um sorriso -, mas, antes de tudo, porque, em outras circunstncias, voc teria recebido uma alta condecorao militar
por essa ltima expedio. S que isso poderia chamar a ateno sobre voc, e imagino que seja a ltima coisa . que deseje. i
Esperou para continuar.
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-  usual que o vice-governador tenha um ttulo. Como sabe, os ltimos seis foram cavaleiros ou baronetes.
- Mas, por que um par?
- Sua Majestade deseja mostrar-lhe seu apreo, e nenhum de ns conseguiu descobrir uma maneira melhor.
- O senhor me deixa embaraado!
- No  muito frequente eu dizer isto a um homem nesta sala, mas voc no somente foi magnfico, como tambm salvou a vida de centenas, talvez de milhares de homens
que, de outra maneira, teriam sido tocaiados e mortos impiedosamente, de uma forma que no vale a pena nem pensar.
Tanto sir Terence quanto Rex Daviot sabiam que os nativos da fronteira noroeste no deixavam suas vtimas morrerem rapidamente. As torturas e mutilaes que infligiam
a seus prisioneiros faziam o mais valente dos soldados vomitar  vista dos corpos.
Rex levantou-se da poltrona e caminhou para a janela. Olhou para fora, mas no via os telhados cinzentos, as rvores de St. James s Park ou o trfego barulhento.
Ao contrrio, via ridos campos cobertos de rochas, atrs das quais talvez estivesse um nativo com uma espingarda ou uma faca afiada, que poderia perfurar o corpo
de um homem, sem o menor aviso.
A fronteira noroeste era uma das regies mais legendrias da ndia. Nenhum outro lugar havia testemunhado tanto derramamento de sangue, intriga, galanteria, selvageria,
pacincia ou sacrifcio.
Fez-se silncio, antes que ele dissesse:
- Peo que o senhor transmita a Sua Majestade meus profundos respeitos e agradecimentos e diga-lhe que, embora tenha apreciado imensamente a honra que me conferiu,
devo recus-la.
- Recus-la? - repetiu sir Terence. - Pode me dar uma razo?
-  muito simples - respondeu o major. - Eu no tenho condies para isso.
Outra vez fez-se o silncio, porque ambos sabiam que os cargos importantes na ndia, abaixo de vice-rei, exigiam muito dinheiro, e ningum poderia aceit-los, sem
ter fortuna prpria, por causa das recepes e do fausto em que era obrigado a viver.
O mesmo acontecia com os outros altos cargos, como os de governador
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de Madras e Bombaim, o de vice-governador das provncias do noroeste e o de governador do Punjab.
- O que acontece - disse Rex Daviot -,  que tive que arcar com uma considervel despesa de famlia, o que fez aumentar meus saques bancrios at o limite. Assim,
prefiro ficar onde estou!
No havia pesar em sua voz, e sir Terence percebeu que o crebro astuto e brilhante de Rex havia medido toda a situao nos poucos minutos em que havia ficado em
silncio, olhando pela janela.
Tendo tomado sua deciso, ps o assunto de lado e no queria ter remorsos.
- Tinha a impresso de que era isso o que voc iria dizer. Rex virou-se, com um sorriso.
- O senhor me conhece pelo menos h dez anos, sir. Assim, conhece, tanto quanto eu, minha situao financeira.
Estavam ambos se referindo ao fato de o pai de Rex, antes de levar uma queda durante uma caada, que o deixara semi-invlido, ter gasto quase toda a fortuna da famlia.
Isso o havia deixado, assim como ao nico filho, na posio de ter que confiar unicamente em seu prprio engenho.
Sir Harold Daviot nascera no sculo errado. Devia ter vivido na poca georgiana, quando, de um dndi, esperava-se que fosse vulgar e extravagante.
O modo de vida de sir Harold, sob o reinado de Vitria, trouxe-lhe a fama de excntrico e fez com que os mais respeitveis membros da sociedade lhe fechassem as
portas.
Rex Daviot era, por sua vez, parecido com o bisav, um valoroso e magnfico soldado, que alcanara o posto de general dos lanceiros de Bengala.
Quando sir Harold acidentou-se e ficou preso a uma cadeira de rodas, o filho tomou para si a tarefa de pagar suas dvidas e de fazer prosperar a propriedade da famlia,
em Northumberland, que tinha sido totalmente negligenciada.
Achou tambm que devia sustentar um certo nmero de senhoras, das quais o pai tinha conseguido favores, para depois deix-las, quando se cansava delas, com suas
crianas e, invariavelmente, na misria.
Isso j era bastante ruim, mas havia ainda o total de despesas mdicas
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a ser coberto e, porque estava imobilizado e pouco tinha a fazer, sir Harold passara a jogar em cavalos de raa, de uma maneira que seguramente no podia sustentar.
Sir Terence estava certo de quo bem-humorada e pacientemente Rex Daviot havia suportado esses encargos, que teriam apavorado qualquer homem de carter fraco e sem
sensibilidade.
- Voc sabe que entendo suas razes e simpatizo com elas. Por isso, tenho uma sugesto a lhe fazer.
- Outro servio?
- No exatamente. Na verdade, diz respeito ao que voc acabou de recusar.
- De que maneira?
-  isso que vou lhe dizer.
Rex voltou da janela para a cadeira onde estivera sentado. - Um cigarro ou um charuto? - sir Terence ofereceu.
- No, obrigado. Deixei de fumar h muito tempo. Os hindus tm um olfato acurado e a fragrncia de um havana caro em um carregador ou em um jinriquix poderia ser
definitivamente suspeito.
Sir Terence sorriu:
- Esses so seus disfarces favoritos?
- No. O Oriente  notvel por seus faquires, e no posso lhe dizer quantas ineficazes preces e rezas eu sei em doze dialetos diferentes.
Ambos riram e, como isso diminuiu a tenso, Rex recostou-se, pedindo:
- Fale-me de sua segunda sugesto.
- Ela realmente veio de Sua Majestade. J que ela est extremamente ansiosa para lhe oferecer o posto sugerido, pediu-me para lhe dizer que considera essencial que
o vice-governador das provncias do noroeste seja um homem casado!
Por um momento, Rex Daviot olhou, surpreso, para o velho amigo.
- bom, isso me exclui! Ainda no aceitei os vnculos do sagrado matrimnio e no pretendo faz-lo! - brincou.
- Por que no?
- A resposta  simples. Nenhuma mulher aguentaria o meu tipo de vida, da maneira como ela tem sido at agora, e no encontrei nunca uma mulher com quem quisesse
dividir o futuro.
- Tenho certeza de que existem muitas candidatas.
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- No exatamente para o casamento - Rex disse, torcendo os lbios, com desprezo.
- Est na hora de voc se acomodar. O baronato Daviot  muito antigo e precisa ter um herdeiro, mais cedo ou mais tarde.
Ambos sabiam que uma das razes por que a rainha no quisera sagrar Rex Daviot cavaleiro era o fato de seu pai, o sexto baronete, no ter acrescentado nada de ilustre
a esse nome to antigo.
Ao mesmo tempo, Rex sentia-se orgulhoso de sua ascendncia, orgulhoso pelo fato de que, com exceo do pai, houvera sempre um Daviot importante ao longo da histria,
nos ltimos trezentos anos.
- H muito tempo para pensar em herdeiros.
- H? - perguntou sir Terence. - Considerando os riscos que voc assume, acho que j  hora de comear a se lembrar de que seu filho ser o oitavo baronete ou, talvez,
o segundo lorde Daviot!
- J lhe disse que no h a menor chance de ele se tornar o segundo lorde!
- Haver a chance, se voc quiser ouvir o que estou tentando lhe dizer.
- Estou esperando.
- No sei se conheceu meu irmo? Rex Daviot balanou a cabea.
- Ele mroreu h um ano atrs. Era um aventureiro, um homem de percepo extraordinria e grande talento para fazer dinheiro. Morreu, na verdade, muito rico.
Rex levantou s sobrancelhas, imaginando como aquilo poderia dizer respeito a ele.
- Meu irmo teve s uma criana - continuou sir Terence. - Uma filha, que est vivendo comigo e com minha mulher h oito meses. Ela herdou uma fortuna to grande
que eu e minha mulher nos espantamos que ainda no tivesse se casado, tendo um dote invejvel como aquele.
- Qual  a dificuldade? J fazia ideia de para onde a conversa seria conduzida e, tambm, de
qual seria a resposta.
- Quando Quenella veio morar conosco, aps a morte do pai, estava com dezenove anos. Em razo de ter viajado muito com meu irmo e
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estarem sempre se mudando, ela nunca teve a oportunidade de conhecer o conforto e a segurana de um lar ou encontrar amigos com os quais tivesse muito em comum.
O rosto de sir Terence ficava preocupado,  medida que prosseguia.
-  uma moa estranha, extremamente inteligente e culta. Ao mesmo tempo, no consigo compreend-la. Talvez seja pelo fato de possuir sangue russo, e ns dois sabemos
que os eslavos so imprevisveis.
- Sangue russo?
- Sua bisav era russa, uma princesa que ficou loucamente apaixonada por meu av, quando este era diplomata em So Petersburgo. Eles precisaram esperar cinco anos
para se casar, pois, embora ela j fosse viva, minha av estava ainda viva. Incuravelmente louca, mas viva!
Parou, como que para deixar Rex Daviot assimilar bem o que havia dito, antes de continuar, com um sorriso:
- Sangue russo, ingls e, naturalmente, irlands. O que voc espera de uma jovem mulher complexa, bonita, muito enigmtica, que, no que me diz respeito,  to misteriosa
como a Esfinge, mas to amorosa como Clepatra deve ter sido nessa idade?
- O senhor faz um retrato muito denso - Rex disse, sabendo que sir Terence tentava excitar sua imaginao e despertar sua curiosidade.
- Minha esposa passou a distrair Quenella, e no preciso lhe dizer o sucesso que ela fez! Choveram convites em casa, por parte de todas as grandes anfitris. A rainha
em pessoa nos cumprimentou pela beleza de Quenella, quando foi apresentada  corte!
Olhou para Rex Daviot e, ento, disse, num tom diferente: - Ento, h dois meses atrs, aconteceu o desastre!
- O que aconteceu ?
- Durante uma festa no castelo de Windsor, Quenella conheceu o prncipe Ferdinand Schertzenberg!
- Aquele porco!
Rex no pde evitar aquela exploso.
- Exatamente! - disse sir Terence. - Embora eu concorde com voc que ele deveria ser barrado em todos os sales da terra e chutado de todas as casas decentes, e
que no tem importncia nenhuma na Europa, ainda assim  um parente da rainha!
- O que aconteceu?
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- Ele perseguiu Quenella de maneira extremamente repreensvel.  um homem casado, alm de tudo, e os dias dos que se comportavam de maneira licenciosa acabaram,
especialmente no castelo de Windsor!
- Quais so os sentimentos da jovem a respeito?
- Ela o odeia! Disse-me que quando ele se aproxima, sente-se enojada, como por um rptil!
Sir Terence calou-se, mas faltava o fim da histria e Rex Daviot perguntou:
- O que aconteceu, ento?
- O prncipe recusou-se a deixar Quenella em paz. Bombardeou-a com cartas, flores, presentes, at que eu lhe disse que tal comportamento no deveria continuar.
Sir Terence suspirou.
- No era uma coisa fcil de fazer, e o prncipe foi ofensivamente rude, como s os alemes sabem ser. Chegou a me ameaar, dizendo que meu comportamento poderia,
se eu no tivesse cuidado, causar um incidente diplomtico, alm da minha demisso!
- Meu Deus! O senhor no o levou a srio, no ?
- Asseguro-lhe que Sua Alteza Real falou muito seriamente, mas eu lhe disse que, se ele continuasse a se comportar daquela maneira, iria informar a rainha do que
estava acontecendo.
- Isso o acalmou?
- Ficou furiosssimo, mas senti que, como qualquer outro, tinha medo de Sua Majestade e passaria a se comportar melhor no futuro.
- Ento, isso acabou com o problema?
- Ao contrrio. Foi apenas o incio. Antes, pelo menos, o mal era visvel e, talvez, mais fcil de combater.
Sabia, enquanto falava, que Rex Daviot podia entender muito bem, porque a seduo e as intrigas entre as tribos incitadas pelos russos eram, sempre, fomentadas pelo
silncio e pela suspeita.
- O que ele fez?
- Conseguiu, sem que eu soubesse, ser includo como convidado para uma festa junto com Quenella. Aconteceu de ser uma festa  qual, tanto eu quanto minha esposa,
no tnhamos, infelizmente, planejado acompanh-la. A anfitri era uma de nossas amigas mais ntimas, e minha esposa estava muito feliz em deixar Quenella aos seus
cuidados.
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Sir Terence fez uma pausa e balanou a cabea:
- Como poderia eu saber que o diabo tinha conseguido, no ltimo momento, ser convidado a tirar vantagem do fato de sua anfitri ser uma senhora crdula e Quenella,
uma jovem inocente?
Havia fria ra voz de sir Terence, quando continuou:
- O prncipe forou a entrada no quarto de Quenella, rasgou suas roupas e tentou violent-la!
- Nunca ouvi falar de algo to monstruoso! Sempre soube que ele era um homem vulgar, mas o que o senhor me contou  incrvel, mesmo vindo de um alemo de ego inflamado!
- Felizmente, algum no quarto ao lado ouviu os gritos de Quenella
- continuou sir Terence -, mas talvez por causa dessa experincia terrvel, ela est chocada de uma maneira difcil de entender.
- Ela teve um colapso ou uma crise nervosa?
- Teria sido melhor, se fosse assim. No. Parece que ela, simplesmente, voltou-se para dentro de si mesma.
Viu que Rex no havia compreendido.
-  difcil dizer com palavras o que aconteceu. Quenella sempre foi orgulhosa. Assim como reservada e um pouco distante em suas relaes com outras pessoas. Atribuo
isso, como disse antes,  sua ascendncia estrangeira, mas depois desse episdio com o prncipe Ferdinand. . .
Calou-se, como que procurando as palavras. Rex, que agora estava inegavelmente curioso, pediu:
- Continue!
-  como se tivesse colocado uma barreira entre ela e o resto do mundo.  delicada e atenciosa com minha esposa e comigo, mas, por outro lado, retraiu-se de todo
contato com seres humanos. Tenho a impresso, embora no me tenha dito isso, de que agora ela odeia os homens!
-  compreensvel.
- Tem recusado todos os convites para festas e para toda espcie de divertimentos.
- No estar, certamente, com medo de encontrar o prncipe?
- Ele est, acredito, ainda tentando entrar em contato com ela. Mas, mesmo quando tem certeza de que no vai encontr-lo, Quenella rasga os convites que recebe.
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- Suponho que ainda esteja em estado de choque.
- Desejaria que fosse s isso. Tenho a impresso de que  algo mais profundo, algo que poder afetar toda a sua vida e seu futuro.
Achou que Rex Daviot sorrira com um pouco de ceticismo. Disse-lhe, calmamente:
- Por isso  que estou pedindo sua ajuda.
- Minha ajuda? Que posso fazer?
- Voc pode se casar com Quenella e lev-la para longe daqui! Houve um silncio de estupefao. Depois, Rex perguntou:
- O senhor est louco?
- Voc pode pensar que  uma sugesto maluca. Porque amo Quenella, quero mand-la embora. Quero que ela esteja completamente a salvo do prncipe. A nica maneira
que pode lhe dar a certeza de que no ir mais persegui-la  fazer com que tenha um marido que a proteja, de uma maneira que eu, francamente, sou incapaz de fazer.
- Por qu?
- Porque, o prncipe pode me causar uma imensa quantidade de problemas, se continuar a me opor a ele.
Sir Terence falava francamente e Rex Daviot estava certo de que era verdade.
O chefe do ndia Office ocupava um posto de tanta importncia que uma briga com um prncipe governante da Europa poderia prejudicar, no s sir Terence, mas, talvez,
toda a monarquia.
Rex Daviot sabia que tinha sido uma grande distino para sir Terence ter sido nomeado, quando ainda relativamente jovem, mas suas qualificaes o tinham tornado
o homem ideal para a posio. Se sua carreira fosse arruinada agora, ou se fosse forado a renunciar, seria uma tragdia para a Inglaterra e, acreditava, uma tragdia
para a ndia.
Como se soubesse exatamente o que Rex Daviot estava pensando, sir Terence continuou:
- Posso estar errado, mas acho que, se voc estiver querendo se casar com alguma jovem, para poder aceitar o posto de vice-governador, no deve conhecer muitas,
exceto aquelas da "Esquadra de Pesca".
Era uma piada, com relao s garotas que partiam para a ndia, todos os anos, na esperana de encontrar um marido. 
Rex Daviot, entretanto, no riu, e sir Terence insistiu: S
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- Parece-me uma proposta muito razovel. Enquanto voc precisa de uma esposa com dinheiro, Quenella precisa de um marido que a tire do alcance do prncipe. Por que,
ento, no pensar sobre isso?
Quando sir Terence parou de falar, o silncio pareceu mais pesado do que antes:
- O senhor est falando realmente a srio sobre isso? - perguntou Rex.
- Nunca fui mais srio em minha vida! E no vou mentir para voc que no tenho um grande interesse particular em sua resposta.
Deu um profundo suspiro:
- Estou pedindo sua ajuda, Rex. Realmente, estou em uma confuso dos infernos, e no vejo outra maneira de. sair dela!
Era totalmente verdadeira a sinceridade em sua voz e foi isso, mais que qualquer outra coisa, que fez com que Rex Daviot hesitasse, antes de pronunciar a categrica
recusa que tremia em seus lbios.
Ento, como percebesse que o velho homem estava esperando, tenso, disse:
- Eu, naturalmente, precisaria de tempo para pensar sobre isso e, talvez, sem me comprometer de maneira alguma, gostaria de conhecer sua sobrinha.
Viu os olhos de sr Terence brilharem.
-  verdade? Oh, Deus, tira um peso de meus ombros!
- No disse absolutamente nada sobre aceitar sua extraordinria e, estou certo, totalmente indita soluo para o meu futuro e para as suas dificuldades - Rex avisou.
- Eu sei disso. Mas, no momento, eu o tenho como uma tbua de salvao para um nufrago.
Olhou para o major, com um apelo nos olhos:
- Talvez voc ache ridculo que um homem em minha posio possa ter medo de um prncipe alemo menor em importncia, mas estou com medo. Posso ver tudo o que constru
nestes ltimos dois anos, a rede que teci com cuidado, os agentes colocados em muitas partes diferentes da ndia, tudo isso despedaado e destrudo.
Parou e, depois, completou:
- Ou melhor, posso dizer, queimado pela lava da luxria de um grosseiro depravado e descontrolado!
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Eram as palavras precisas para descrever o prncipe, pensou Rex.
- O difcil  que, fora destas quatro paredes - continuou sir Terence -, tenho que trat-lo com o respeito que a sua posio e ele requerem.
Mas o outro j no pensava no prncipe, e sim no prprio futuro.
Estava certo de que as repercusses poderiam no ser particularmente agradveis : estaria preparado para recusar a oferta da rainha por seus servios e rejeitar
aquilo que era a maior honra que havia recebido em sua carreira?
No fundo de sua mente, admitia que poderia continuar com seu trabalho, de uma maneira diferente, mas sempre com sucesso, se voltasse s provncias do noroeste como
vice-governador.
Ningum melhor do que ele sabia que era impossvel levar a cabo outro golpe das propores daquele que acabara de executar, sem deixar passar um bom tempo.
Por mais que tivesse cuidadosamente disfarado seus rastros, por mais que fossem ignorantes aqueles que enganou, poderia haver no futuro um sussurro, um gesto, uma
pergunta nos olhos dos que o cercavam.
Ningum seria capaz de descobrir todo o seu segredo, mas mesmo a menor suspeita j seria perigosa.
- Tenho que me esconder - disse Rex Daviot para si mesmo e nenhum lugar  melhor do que o Palcio do Governo em Lucknow.
Enquanto pensava, podia ver claramente o casaro de Lucknow e o Palcio do Governo em Naini Tal, situado entre os bosques do topo do Himalaia.
Como todos os que trabalhavam e viviam na ndia, Rex Daviot havia desenvolvido sua intuio, de uma maneira que o resto de seus compatriotas acharia difcil de entender.
No era simples clarividncia; era algo mais profundo, uma espcie de mergulho na vida espiritual, adormecida por trs da superfcie colorida e fantstica da ndia.
Em Naini Tal, quando visitou o ltimo governador das provncias do noroeste, ficou olhando para o Himalaia, com seus escarpados declives de milhares de metros. Em 
volta do cume de uma montanha coroada de neve, duas guias douradas rodopiavam e tremulavam contra o cu
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translcido. Aquela cena, em sua calma beleza, tocara fundo em seu corao e nunca mais a esqueceu.
Depois disso, sempre que tinha que tomar alguma deciso relativa a alguma crise em sua vida, ou quando estava ciente de algum perigo, a lembrana das guias voltava,
onipotente, serena e estranha, como se fosse uma parte dele mesmo.
Sabia que sir Terence estava esperando. Sabia que se encontrava em uma encruzilhada e a direo que tomaria dependia das prximas palavras que pronunciasse.
As guias hesitavam, como se esperassem!
Sorriu e isso iluminou seu rosto, varrendo a ltima nuvem de preocupao de seus olhos.
- Bem, o senhor no gostaria de me convidar para jantar?
A casa de sir Terence, em St. John s Wood, era o prottipo das residncias dos membros da alta sociedade que eram bastante ricos, mas no ostensivamente.
Havia um mordomo para apanhar o casaco de Rex Daviot, assim como seu chapu, quando ele chegou; e duas criadas, com suas toucas brancas, que ajudaram a servir o
timo jantar.
Sir Terence, por sua vez, apresentou aqueles que Rex Daviot sabia serem seus melhores vinhos, e fez-lhe justia, depois de ter passado por uma amarga experincia
com os poucos vinhos que conseguiam sobreviver no clima indiano.
 medida que caminhava pela sala de estar em forma de L, no primeiro andar, onde lady O Kerry iria receb-lo, observou como tudo aquilo era familiar, feito as ilustraes
de um livro lido muitas e muitas vezes.
Frequentemente, quando se encontrava na ndia, havia pensado na Inglaterra e nas aconchegantes e confortveis salas de estar, nas quais senhoras, com seus vestidos
decotados e pequenos corpetes, estariam postadas, com sorrisos convencionais nos rostos empoados, para agradar os convidados.
Seus diamantes, incrustados em antiquados suportes, precisavam, muitas vezes, de um polimento, e haveria sempre um tnue perfume de lavanda ou violeta, quando elas
passassem.
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Flores da estao estariam arranjadas, formalmente, nos mesmos vasos, semana aps semana, ms aps ms. Haveria narcisos na primavera; rosas no vero; dlias, crisntemos
e, se o anfitrio ou anfitri tivesse condies de manter uma casa de campo, cravos nascidos em suas prprias estufas.
No vero, poderiam ser servidos no jantar suculentos pssegos e imensas uvas moscatel, provenientes das mesmas reservas.
Rex Daviot aceitou um clice de sherry oferecido por sir Tere.nce, e lady O Kerry perguntou-lhe pela sade do pai, se estava feliz por ter voltado, se fazia muito
calor na ndia, etc., etc. Ento, a porta se abriu, e a moa que ele viera conhecer apareceu.
Durante o percurso entre o Traveller s Club, onde se encontrava, e St. John s Wood, Rex Daviot tentou imaginar como poderia ser Quenella O Kerry.
Surpreendera-se, ou melhor, divertira-se com a maneira lrica e, ao mesmo tempo, enigmtica com que o tio a descreveu. Sempre achara que sir Terence era um homem
extremamente convencional.
No havia certamente nada de diferente ou particularmente impressionante a respeito de lady O Kerry. Vendo marido e mulher juntos, parecia-lhe o feliz casamento
de duas pessoas muito parecidas. Tinham trs filhos, que se encontravam todos em um colgio interno, e lady O Kerry confessara-lhe, certa vez, que sempre desejou
uma filha.
- Acho que poderia compensar com uma sobrinha, mas tenho a impresso de que no seria igual a uma filha de verdade.
Rex Daviot queria saber se ela achava a sobrinha to incompreensvel como o marido achava, mas estava certo de que os dois teriam a mesma opinio.
Lady O Kerry acharia qualquer garota diferente, e at mesmo difcil, se no fosse a imagem perfeita da filha sonhada. E questionava a descrio que sir Terence fizera
de Quenella: a opinio de um homem que se apaixonara por lady O Kerry era, no mnimo, pouco confivel.
Rex nunca tinha se perguntado exatamente o que procurava em uma mulher, para ser sua esposa. Achara sempre remota a possibilidade de vir a ter uma, especialmente
com o esforo financeiro que fazia para manter seu pai no luxo a que estava acostumado.
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Sabia, porm, o que no queria: o tipo de Mem-Sabib que conhecia na ndia.
O problema dessas mulheres era que no tinham muito com o que se ocupar, tendo muitos criados, no aceitando nenhum contato com os hindus e vivendo constantemente
viajando ou em manobras.
As crianas eram separadas delas, e se tornavam mulheres frustradas. A sada para elas era o mexerico, a intriga, as interminveis festas que aconteciam em Simla,
para onde iam na poca do calor ou os romances clandestinos que sempre terminavam em tragdia.
Uma vida como essa, Rex Daviot havia dito para si mesmo, muitas e muitas vezes, lhe daria vontade de estrangular a esposa em poucos meses de casamento.
Seus casos de amor, e teve muitos, foram todos com aquelas que seus compatriotas chamavam de "grandes senhoras".
A ndia tornara-se um lugar de intensa vida social, desde a abertura do canal de Suez, que facilitou o acesso at l. Antes disso, a viagem durava quatro ou cinco
meses, dando a volta pelo cabo da Boa Esperana. Agora, o percurso Londres-Bombaim era feito em menos de trs semanas e o modo de vida da ndia fora revolucionado
de vrias maneiras.
Tornara-se elegante viajar para l durante a alta estao, para visitar o vice-rei e fazer um tour pelos outros Palcios de Governo. As damas passaram a voltar carregadas
de jias, com saris e caixas incrustadas em pedras preciosas, que, por alguma razo, perdiam o brilho e esplendor assim que chegavam a Londres.
As mulheres que achavam o enigmtico e misterioso major extremamente atraente, frequentemente o perseguiam pela ndia, quando ele as deixava. Escreviam-lhe cartas
excitadas, em papel de carta timbrado, contando-lhe de suas chegadas e de onde poderia com certeza encontr-las.
Algumas vezes, ele se intrigava e se divertia; em outras, aborrecia-se e, nesse caso, era muito fcil desaparecer: o vice-rei, com muito tato, explicaria que o major
Daviot estava em misso sigilosa no norte e que era impossvel entrar em contato com ele.
Mas, de modo geral, Rex Daviot achava que esses interldios em sua vida estranha, ocupada e perigosa, eram como encontrar uma extica
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flor na estrada e gozar sua fragrncia e. sua beleza por um breve perodo, antes que murchasse e fosse jogada de lado.
Embora elas preenchessem uma carncia em sua vida, nunca se imaginou tendo uma esposa, que brilhasse como uma estrela em cada evento social e que, no estando ele
junto, pudesse brilhar e ser sedutora para mais algum.
Seu ideal de mulher no tinha rosto e dizia a si mesmo que nascera solteiro e que assim deveria permanecer, se tivesse algum juzo.
Ao mesmo tempo, no havia s o Palcio do Governo em Lucknow esperando por ele; havia tambm o grito de socorro de sir Terence. O desespero em sua voz ainda ecoava
nos ouvidos de Rex Daviot.
Tinha total conscincia de uma dvida de gratido para com sir Terence. Durante todos esses anos, ele o havia amparado, encorajado e lutado por ele. Sempre que quis
permisso para fazer certas coisas pouco ortodoxas e cujos riscos apavoravam as autoridades na ndia, contou com o apoio e a influncia do chefe para conseguir.
Nunca deixou de receber resposta e geralmente dava-lhe carta-branca para agir.
Casamento!
Rex Daviot mexeu-se, inquieto, dentro do lento coche que o conduzia a St. John s Wood.
O que diabos poderia fazer com uma esposa deprimida, que solicitava sua ateno, seu tempo e, inevitavelmente, j que era rica, sua gratido?
-  impossvel! Preciso achar outra soluo! - disse para si mesmo. Mas sabia que no havia outra.
Agora que Quenella entrava na sala, procurou, com dificuldade, olhar diretamente para ela.
Tinha certeza de que estava ali, de que se movia lentamente e com uma graa que podia sentir, mesmo sem ver.
Ento, virou-se para encar-la quando ouviu sir Terence dizer:
- Quenella, quero que conhea o major Rex Daviot!
Viu, atnito, que era, sem dvida, uma das mulheres mais lindas qui j havia conhecido, e totalmente diferente do que ele esperava,
ou mesmo imaginava!
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CAPTULO II

Como Rex Daviot olhasse para Quenella com espanto, ela inclinou a cabea e retirou-se sem uma palavra, em direo  lareira.
Assim que se virou, ele notou que, por baixo das amplas e graciosas saias de seu traje de noite, tinha uma cintura delicada e uma elegncia inesperada em algum
to jovem.
Durante o jantar, como estivesse sentada na frente dele, no pde observ-la melhor, sem parecer indelicado.
Sups que era pelo fato de possuir sangue russo que seus olhos eram escuros e enigmticos. Piscavam ligeiramente, dando-lhe uma expresso de esfinge, extremamente
encantadora, mas toda a sua atitude era de reserva, e ele estava certo de que ela queria parecer indiferente.
Conseguia entender o que sir Terence dissera, quando afirmara que a sobrinha tinha-se voltado para dentro de si mesma.
Pela maneira como falava, era bvio para Rex que, embora fosse
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meticulosamente polida e corts, isso era uma fachada e que, na verdade, sentia algo totalmente diferente.
Seu trabalho na ndia o havia tornado bastante perceptivo. Nos inmeros disfarces que assumia, de tempos em tempos, aprendera no s a se comportar como um ator,
mas tambm penetrar no ntimo do personagem que representava.
Isso o havia ensinado a usar seu instinto para avaliar as pessoas e, como sempre afirmava, "descobrir o que elas queriam".
Achava fascinante saber que, por trs de quase tudo que Quenella havia dito, existia um pensamento quase oposto e, se ela se permitisse falar, sairiam de seus lbios
palavras muito diferentes.
Ao mesmo tempo, via que, por mais perceptivo que fosse, ela continuava um enigma que ainda no conseguia entender, mas que seria extremamente interessante decifrar.
Falaram sobre trivialidades durante a refeio, com lady O Kerry mexericando sobre as pessoas que frequentavam a corte e seus muitos amigos que viviam na ndia.
Era amiga ntima de lady Curzon, a vicerainha, e pediu a Rex que, quando voltasse, levasse a ela alguns livros de presente.
Prometeu fazer isso e no pde deixar de completar, lanando um olhar a sir Terence:
- Ainda no est certo o momento da minha volta.
- Meu marido sempre diz que a ndia no pode ficar sem voc.
- Sir Terence  gentil comigo, mas admito que todos os meus interesses esto naquele pas estonteante e estranho, que acho mais fascinante a cada momento que passa.
Percebeu que Quenella havia lanado um rpido olhar para ele, como se quisesse perguntar algo, mas desistiu.
O jantar terminou e foi com uma sensao de alvio que Rex Daviot percebeu que as senhoras iam se retirar.
Abriu-lhes a porta. Lady O Kerry, ao passar por ele, bateu-lhe suavemente no ombro com o leque:
- No demore para se juntar a ns.  ruim para Terence beber muito Porto e Quenella e eu estaremos esperando por voc na sala de estar.
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No esperou resposta e saiu. Quenella passou por ele, sem olh-lo, deixando no ar um perfume cujo nome no conseguiu lembrar.
Conhecia a maior parte dos perfumes favoritos usados, alis, em excesso pelas senhoras da alta sociedade. Mas aquela fragrncia era inebriante e ainda a sentia no
ar, mesmo depois de ter voltado  mesa.
Assim que se sentou, sir Terence olhou para ele.
- Bem?
No havia necessidade de dizer mais nada: Rex entendeu.
- Ela  muito bonita - disse calmamente.
- Muito bonita - concordou o tio. - E isso faz com que seja quase desnecessrio ser to rica.
Bebericou seu Porto e acrescentou:
- Aps nossa conversa desta manh, procurei me informar sobre quanto ela possui.  de fato uma soma astronmica, que, por causa da procura crescente do leo, ir
se multiplicar em poucos anos. Sua fortuna est investida em outros bens, cujo valor tambm subir.
Rex Daviot no respondeu e sir Terence percebeu, pela posio de seu queixo e pela linha dura de sua boca, que odiava pensar em se tornar devedor de uma mulher e,
acima de tudo, de sua prpria esposa.
Sabia que, pela lei, controlaria toda a fortuna dela, bem como todas as aes. Mas, exatamente por ser orgulhoso, tinha certeza de que se sentiria humilhado, se
tivesse que gastar o dinheiro dela, e no o dele.
- Esquea tudo isso - disse sir Terence, e se referia aos escrpulos do outro. - Pense apenas que voc no est tirando o dinheiro de Quenella apenas para si, mas
para o bem da ndia.
- O senhor realmente acha isso?
- Sei, melhor do que ningum, que isso  verdade. O que  mais importante, neste momento, para a paz do pas que ns dois amamos?
Houve uma pausa e Rex Daviot esperou, sabendo que ia ouvir uma confidncia importante.
- Acho que no tenho necessidade de lhe dizer - comeou sir Terence -, que o que vou contar me. foi transmitido no mais absoluto segredo, e sinto que preciso, de
alguma forma, convenc-lo de quanto voc  importante.
- Estou ouvindo.
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- Quando lorde Curzon chegou  ndia como vice-rei, em 1899, ouviu rumores sobre atividades russas no Tibete e ficou alarmado.
Rex Daviot sabia que a posio britnica na ndia, muitas vezes fora abalada pelos avanos russos na sia Central.
Como a Rssia estendera sua soberania ao Afeganisto, a Gr-Bretanha empurrou as fronteiras da ndia mais para oeste e noroeste.
O Tibete, localizado no longnquo norte, antes dominado pela China, em 1900 era independente e hostil aos estrangeiros. Era uma terra remota, fria e inspita, governada
pelo Dalai Lama e seus monges budistas.
- Lorde Curzon acredita - continuou sir Terence, em voz baixa, como se sentisse que, mesmo em sua sala de jantar, poderia ser descoberto - que existe um pacto secreto
entre a Rssia e a China, que concede aos russos direitos especiais no Tibete.
- J tinha ouvido isso, mas nunca acreditei.
- Pensa-se que a Rssia tenha enviado armas ao Tibete, e lorde Curzon teme distrbios na fronteira tibetana da ndia, insuflados pela Rssia.
Rex Daviot ouvia atentamente. Sabia bem que isso era possvel. A Rssia j havia insuflado os nativos, no Passo Khyber, tornando-se, consequentemente, responsvel
pela perda de muitas vidas de soldados.
Quando deixou a ndia, seu relatrio, que seguiu pelo malote diplomtico, prevenia as autoridades de que mais confuses eram esperadas e alguma coisa deveria ser
feita.
- O que o vice-rei deseja discutir com voc - disse sir Terence -,  sua ideia original de ter um agente britnico em Gyantse.
Esta era uma guarnio situada no meio do caminho entre Lhasa, capital do Tibete, e a fronteira indiana, perto de Darjeeling.
- Sempre pensei que poderia ser uma boa ideia - Rex concordou -, mas talvez no seja fcil convencer os tibetanos da necessidade disso.
- Por isso  que lorde Curzon est extremamente ansioso para v-lo e saber sua opinio sobre quem deve ser enviado para negociar com eles.
- Acho que j tinha dito que o homem ideal seria o coronel Francis Younghusband.
- Tenho certeza de que conseguiria persuadir o vice-rei a concordar com voc.
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- Preferia que ele me indicasse.
- Imaginei que isso passasse por sua cabea - sorriu sir Terence. Por muitos anos, tenho concordado com voc, mas  muito importante para se perder em um isolado,
ainda que importante, posto. Como eu e voc sabemos, pode ser que se passem muitos anos, antes que algo seja conseguido.
Rex Daviot sabia que era verdade. Os tibetanos eram verdadeiros mestres em evasivas e nunca davam uma resposta definitiva a qualquer pergunta, ainda que razovel.
- Na minha opinio - continuou sir Terence -, a nica forma de se conseguir alguma coisa  atravs de uma ao direta.
- O senhor est sugerindo que Younghusband avance pelo Tibete, em dreo a Gyantse, com uma escolta militar?
- Pensei que isso constasse de seu ltimo relatrio.
- Sim, mas tambm escrevi que, primeiro, devem ser tentadas as negociaes pacficas.
- Concordo. E uma de nossas tarefas, Rex, vai ser convencer os impetuosos comandantes de nosso exrcito de que eles no devem se infiltrar agressivamente no Tibete,
antes de estarmos prontos a faz-lo.
Rex Daviot no respondeu e sir Terence bateu com firmeza o punho sobre a mesa de jantar.
- Que diabos, Rex! Por que voc hesita? Voc  to mau quanto os tibetanos. Sabe to bem quanto eu que no h ningum mais na ndia, neste momento, que tenha um
maior conhecimento sobre a situao do norte.
- Est bem, eu admito.
- Ento, voc deve fazer! S Deus sabe o quanto tem arriscado sua vida, para trazer as informaes de que precisamos desesperadamente. Fez uma pausa, e disse,
mais calmo:
- Como voc conseguiu sobreviver da ltima vez, entre os nativos, eu no consigo imaginar!
Rex Daviot sorriu, um pouco cnico, mas sir Terence impediu que fizesse qualquer comentrio.
- Fique quieto! Guarde seus segredos para voc. Na fronteira, uma palavra pode matar!
Os dois homens sorriram e o velho levantou-se.
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- Juntemo-nos s senhoras! E quando minha esposa se recolher quero falar com voc e Quenella juntos.
Rex Daviot olhou para ele, surpreso, mas sir Terence j estava quase saindo da sala de jantar, e no havia nada a fazer, seno segui-lo.
Lady O Kerry saudou-os com entusiasmo, quando chegaram  sala de estar e Quenella levantou-se, dirigindo-se ao piano.
Rex Daviot estava certo de que tinha feito isso porque no desejava conversar com ele.
A princpio, tocou bem calmamente o que parecia ser um fundo musical para os mexericos de lady O Kerry. Ento, comeou a tocar uma melodia vibrante, que ele reconheceu.
Era uma cano cantada na Rssia pelos servos oprimidos pelos cruis patres e que, como todos os povos escravizados, s podiam expressar seu sofrimento atravs
da msica. A melodia, estranha e obsessiva, parecia falar de coisas secretas, para ser ouvida tambm com o corao.
Rex Daviot surpreendeu-se imaginando o que Quenella sentia, enquanto tocava.
Reconheceu que sua interpretao era boa, quase profissional, e se perguntava se aquela emoo seria verdadeira.
Lady O Kerry, como se tivesse sido muito bem ensaiada, levantou-se.
- Espero que me perdoe, major Daviot, se me retiro cedo. Passei o dia todo com uma forte dor de cabea. Mas, por favor, no se v. Sei quanto meu marido aprecia
sua companhia. E ns temos poucas oportunidades de v-lo.
- A senhora  muito gentil.
- E, por favor, volte e diga adeus, antes de partir para a ndia. Saiu da sala e Quenella, que havia se levantado do piano, fez meno
de segui-la, porm sir Terence a deteve.
- Desejo falar-lhe, Quenella. Ela caminhou em direo ao tio, sem dizer nada, e ele lhe indicou um
lugar no sof prximo  cadeira onde Rex Daviot estava sentado. :
Ambos esperavam e sir Terence, de costas para a lareira, falou:
- Tenho algo muito importante a dizer, com relao a vocs dois. Depois de um momento de hesitao, o velho falou, dirigindo-se a Rex.
- Depois que voc deixou o ndia Office, esta manh, recebi um comunicado, cuja importncia, penso, ambos entendero.
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.- De quem, tio Terence?
Havia em sua voz uma nota que mostrou a ambos que ela estava apreensiva.
- Veio da parte do embaixador alemo.
Olhando para ela, Rex percebeu que se tornava mais plida do que estivera durante todo o jantar.
Sua pele possua uma aparncia de magnlia, o que, assim como seus expressivos olhos, revelava que no era inteiramente inglesa. Seu cabelo tinha reflexos cor de
cobre, que se avermelhavam  luz das lmpadas de gs. Eram esse cabelo e os olhos que a faziam diferente de todo mundo, pensou Rex, e ao mesmo tempo lhe davam uma
beleza perfeita. Uma beleza estranha!
No entanto, talvez por causa de sua maneira reservada, ou talvez por causa do que sir Terence chama de "volta para dentro de si", ela no o atraa, como era de se
esperar de uma mulher bonita.
Ele a admirava, como algum pode admirar uma escultura ou a pintura de um mestre, mas, naquele momento, no sentia por ela nenhuma atrao fsica. De fato, ela parecia
uma bela deusa, mas uma deusa de pedra.
- Recebi uma carta do embaixador - continuou sir Terence -, perguntando se voc, Quenella, no gostaria de estar com ele e a esposa, a baronesa von Mildenstadt,
em sua casa de campo de Hampshire, para um baile na prxima semana.
Quenella aprumou-se.
- Eu. .. ouvi falar sobre o baile. O convidado de honra . .. Sua Alteza Real, o prncipe Ferdinand.
- O embaixador disfarou com muitos floreios, mas a linguagem era ameaadora. Ficou bem claro que sua presena  obrigatria.
- Ameaadora?! - perguntou Rex Daviot, abruptamente.
- Utilizou-se do mtodo simples de juntar uma outra carta no envelope, na qual solicita uma entrevista formal com o secretrio de Estado para os Negcios Estrangeiros,
o marqus de Salisbury.
Sir Terence fez uma pausa, para impressionar, e continuou:
- Deverei estar presente a esta entrevista, e a data sugerida foi um dia antes do mencionado, no convite de Quenella, para Hampshire!
- Eu no irei! - disse a moa, com firmeza.
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- Se voc fizer isso, se recusar, o que naturalmente ns desejamos fazer, o embaixador deixou claro, sem precisar usar as palavras, que vai comunicar ao marqus
o meu comportamento com relao  Sua Alteza Real. Como vocs dois sabem, serei forado a oferecer minha renncia ao primeiro-ministro.
- Mas, por qu? Por que ele faria isso? - perguntou Quenella.
- Minha querida, no so necessrias explicaes lgicas, quando se trata de diplomacia, e a palavra real sempre prevalece nesses casos.
- A coisa toda  intolervel! - exclamou Rex Daviot. - Vejo claramente como o prncipe pretende exercer presso sobre sua sobrinha, para conseguir o que deseja.
- Eu no serei sua. .. amante! - Quenella disse, em voz baixa.
- A deciso  totalmente sua, minha querida!
- Mas ele pode mesmo. . . prejudic-lo, tio Terence?
- Receio que sim. Fui, admito, extremamente franco no que disse a ele, quando soube de seu comportamento em relao a voc. Ns estvamos a ss, no houve testemunhas.
Mas Sua Alteza Real no ir nunca me perdoar totalmente.
- Ele abusa tambm porque o senhor no pode desafi-lo para um duelo -; disse Rex.
- Poderia ter acontecido um escndalo! - respondeu sir Terence.
- Era, naturalmente, o que eu desejaria ter feito. Mas voc sabe tanto quanto eu que ele teria sua revanche.
- Penso que  o que ele est tendo agora.
- No exatamente. Sua Alteza Real est tentando colocar Quenella numa posio em que seja obrigada a ouvir o que ele quer lhe dizer. Imagino que tente se desculpar
e, ento, cortej-la outra vez.
- Eu no o ouvirei!
- Se voc estiver em Hampshire, com a baronesa von Mildenstadt, no ter muita chance de evitar.
Quenella prendeu a respirao.
- E se eu fne recusar a ir, ele realmente tentar destruir a sua carreira?
- Certamente tentar. Pode no ser bem-sucedido, mas, de qualquer maneira, meu trabalho ser prejudicado. E isso afetar minha reputao.
- O senhor me falou de minha importncia na ndia - interrompeu
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Rex -, e no o estou bajulando, sir Terence, quando digo que o senhor  de vital importncia para o Imprio e para a Europa.
Os dois homens entreolharam-se. Sabiam ambos que estavam pensando no quanto a Gr-Bretanha seria solapada com o crescimento do Imprio alemo.
Como sentisse que j havia dito o suficiente, sir Terence completou:
- Contei a vocs como est a situao. Agora, eu me retiro, para deix-los discutir e, quero esclarecer, aceitarei sem comentrios qualquer deciso. Vocs tm a
vida  sua frente. Eu tenho apenas alguns poucos anos,  a minha ltima etapa.
Sem dizer mais nada, atravessou a sala e saiu, fechando a porta. Por um momento, houve silncio, e ento Quenella se levantou.
-  intolervel! Absolutamente intolervel que algum homem, ainda mais um prncipe real, possa se comportar dessa maneira vil.
Olhava para o fogo, enquanto falava, e as chamas iluminavam a perfeio quase clssica de seu pequeno nariz e de seus lbios bem delineados.
Rex Daviot surpreendeu-se, observando que aqueles lbios no eram os de uma mulher fria e indiferente. Havia neles alguma coisa quente e sensual, e imaginou se sua
reserva quase gelada no escondia uma natureza totalmente oposta.
- Concordo com voc, inteiramente, mas a nica coisa que tenho a dizer  que seria um desastre para a Inglaterra perder seu tio, e particularmente, neste momento.
- Tio Terence disse que a nica maneira que tenho de sair dessa confuso. . . seria. .. casando.
- Seu tio est certo. Se seu noivado fosse anunciado e, no seu caso, sem dvida com a aprovao da rainha, seria uma desculpa perfeita para recusar o convite do
embaixador. E, ainda, para deixar a Inglaterra imediatamente.
Ambos sabiam que ele queria dizer que isso aconteceria, se ela se casasse com ele, mas Quenella continuou a olhar o fogo. Outra vez, aconteceu um silncio desconfortvel.
Por fim, ela falou:
- Tio Terence disse que voc. . . tambm tem. . . um problema.
- Meu problema  muito mais simples. Ofereceram-me o cargo de
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vice-governador das provncias do noroeste, mas no tenho condies de aceitar.
Sentiu que isso soara um pouco brusco, e continuou:
- Na verdade, estou quase falido por causa da doena de meu pai. Meu instinto  recusar e voltar para a ndia, como simples soldado.
- Meu tio disse tambm que seria extremamente importante t-lo como vice-governador.
- No  a nica maneira de eu servir meu pas, mas admito que seria mais fcil para mim do que para qualquer outro homem realizar certas coisas, por causa do trabalho
que tenho executado durante todos esses anos. S que, para falar a verdade, no tenho vontade de me casar e, certamente, no com algum que acabei de conhecer.
Quenella no respondeu e ele continuou:
- Isso pode soar, talvez, um pouco rude, mas ns temos que falar francamente um com o outro. Penso que  a nica coisa que podemos fazer.
- Claro. Tambm no desejo me casar. Odeio os homens! Eles no passam de animais!
Falava de maneira impressionante. No gritava seu dio. Ao contrrio, falava baixo, entre dentes, com uma violncia reprimida que estarrecia Rex, apesar de j esperar
tal reao.
- Entendo - disse ele, - Mas, que outra alternativa voc tem? Quenella suspirou.
- No sei. Suponho que possa ir para um convento. L, ao menos, o prncipe no poderia me seguir.
- Sem uma vocao verdadeira, no posso imaginar vida mais opressiva e insuportvel para algum como voc.
- O que est querendo dizer com isso?
- Seu tio me falou que voc  inteligente. Posso ver que  sensvel e receptiva. Suponho, tambm, que tenha uma imaginao viva.
Olhou para ele, como se estivesse ofendida com o fato de estar se referindo a seus sentimentos. Ento, disse, de m vontade:
- Suponho que voc pensa que sabe como me sinto.
- Acho que o importante no  pensar em ns, mas em seu tio. A razo de ter vindo aqui esta noite,  estar preocupado com ele.
- Ele tem sido to bom para mim - disse Quenella. - Gosto de
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estar com ele, conversar com ele. Por que isso foi acontecer? Por que
comigo?
Essa  uma questo, pensou Rex Daviot, com um sorriso misterioso, que tem sido formulada por homens e mulheres em confronto com seus problemas individuais, durante
sculos. "Por que isso foi acontecer comigo?" era o grito daqueles que querem lutar contra o inevitvel, mesmo quando sabem que no podem fazer absolutamente nada.
Pensou em dizer a Quenella, nesse momento, que sua beleza poderia ser sempre uma tentao para os homens e que, certamente, ela teria dificuldade em controlar os
desejos dele, mas poderia ser uma falta de tato.
- Acho que precisamos admitir que temos apenas duas escolhas: ou salvamos seu tio, ou nos salvamos, s custas dele.
Quando acabou de falar, sentiu como se tivesse dado um ultimato, que ecoava pela sala.
Ento, viu Quenella levantar lentamente o queixo e, pela primeira vez, desde que comearam a conversar, olhou para ele diretamente nos olhos.
- Qual  o seu plano, major Daviot?
Era mais um desafio do que uma pergunta e, sem hesitar, Rex Daviot respondeu:
- Porque considero a carreira de seu tio muito mais importante do que a minha,
peo-lhe que seja minha esposa!
Viu que os estranhos olhos dela procuraram os dele, como se quisessem ler seus pensamentos, talvez para se assegurar de que teria outros motivos pessoais.
Antes que pudesse falar, Rex continuou:
- Como ns dois sabemos, ser um .casamento por convenincia e, embora eu v trat-la com todo o respeito devido  mulher que usa meu nome, no exercerei meus direitos
de marido, nem solicitarei outros favores, alm daqueles para os quais voc esteja preparada.
Sabia que era isso que atemorizava Quenella e percebeu um tnue rubor crescer em suas faces. Isso a fazia, como se fosse possvel, parecer mais bonita ainda. Ao
mesmo tempo, dava a impresso de ser um pouco mais humana, um pouco menos esttua de pedra.
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- Se promete isso, se jura que nosso casamento ser unicamente um negcio. . .
um expediente. . . ento, estou pronta a despos-lo!
Rex Daviot levantou-se.
- Obrigado. E agora que isso est decidido, sugiro que chamemos seu tio e faamos os planos.
No esperou pelo consentimento de Quenella. Saiu da sala,  procura de sir Terence.
Ele esperava pela deciso deles em um pequeno estdio, ao rs-docho, e tinha uma certa expresso que mostrou a Rex que estava muito apreensivo.
Levantou-se, lentamente, quando o amigo disse:
- Sugiro que o senhor volte  sala de jantar, sir Terence. Temos muitas coisas a decidir e precisamos de sua ajuda e conselhos.
Sir Terence segurou-lhe as mos.
- Obrigado, Rex. Talvez no acredite, mas minha clarividncia irlandesa me diz que voc nunca se arrepender deste dia.
- Espero que sim. Farei o possvel para tornar Quenella feliz. No conseguia disfarar uma nota de sarcasmo na voz e percebeu que
o velho homem sabia o que ele estava sentindo.
Subiram as escadas em silncio, at a sala de jantar.
Sir Terence passou o brao em volta dos ombros da sobrinha e a beijou.
Rex Daviot notou que ela no correspondeu. Simplesmente deixou-se beijar, impassvel. E compreendeu que, para Quenella, o tio querido era, naquele momento, apenas
um homem, cujo toque mal podia suportar.
Voltando ao Traveller s Club, Rex surpreendeu-se pensando que nunca, depois de muitos anos vivendo situaes estranhas, tinha estado em uma igual a essa.
Nunca sonhara que, ao regressar  Inglaterra, haveria uma crise dessas esperando por ele e que, num espao de vinte e quatro horas, estaria frente a frente com uma
deciso que iria modificar toda sua vida.
Parecia incrvel que embarcaria para a ndia casado com uma mulher que, obviamente, no gostava dele e a quem ele havia prometido no ser outra coisa, alm de seu
esposo s no nome.
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Mas Quenella faria jus, sem dvida,  posio e ao ttulo que agora lhe seriam concedidos.
Toda a situao era to incrvel, que desejou estar de volta  ndia. Viveria muito melhor no meio de inimigos, disfarado de faquir,
sabendo que,  menor suspeita, seu sangue seria derramado.
Vivera perigosamente durante muito tempo, e nunca havia passado por sua cabea, ao entrar no ndia Office, que estava embarcando em outra aventura.
Por ser uma situao to delicada, estava certo de que poderia lhe trazer mais aborrecimentos e ansiedades do que qualquer outra coisa que tivesse feito.
- Que farei com uma esposa? E com esse tipo de esposa!
Vira a repugnncia nos olhos de Quenella quando seu tio falou sobre o casamento e agradeceu por terem tido tanta considerao por ele.
- No preciso lhes dizer o que isso significa para mim. A nica coisa que posso afirmar  que conheci vocs dois de maneira diferente, mas ambos tm caracteres fortes,
e, cada um  sua maneira, nico!
Deu uma risada e depois continuou:
- Parece que o destino quis que vocs se encontrassem!
Se isso era verdade, pensou Rex Daviot, amargamente, o destino no tinha misturado bem seus ingredientes.
Notou que, ao dar boa noite, s graas a um grande autocontrole, Quenella no disse que havia mudado de ideia.
Ela queria gritar que no desejava se casar daquela maneira mentirosa e que seria um verdadeiro inferno tornar-se esposa de um desconhecido.
Rex percebera, tambm, que havia qualquer coisa de pessoal naquela antipatia que sentia por ele. Mas tentou se convencer de que estava imaginando coisas, e que tinha
sido somente uma reao  inconfortvel e difcil deciso que fora obrigada a tomar.
Houve um momento, quando o tio se reuniu a eles na sala de jantar, em que teve a chance de desistir de tudo.
- Voc pode pensar que estou preocupado demais - disse ele -, mas no duvido do prncipe. Quando um homem, to mimado e seguro de si como ele, se sente arrebatado
pelo amor, no deixa que nada o impea. E estou afirmando: nada!
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- Chama isso realmente de. . . amor? - perguntou Quenella, de denhosa.
- Chame como quiser, mas o principe perdeu a cabea por voc. Voc o deixou louco, e ele no se apercebe da extenso de seus ato o que  perigoso.
Rex Daviot sabia que ele no estava falando por falar.
- O que o senhor sugere?
- Sugiro que se casem o mais rpido possvel e saiam do pas. Posso parecer teatral e muito dramtico, mas  mais pela segurana de Quenella do que pela minha. Ela
precisa ser tirada das vistas do prncipe.
- Concordo com o senhor - disse Rex. - E, como desejo voltar  ndia o mais depressa possvel, gostaria que o senhor arranjasse a audincia com a rainha o quanto
antes, para que possamos ser casados com uma licena especial, no dia seguinte.
Fez uma pausa, indeciso.
- Acredito que seja preciso anunciar o casamento vinte e quatro horas antes, para se conseguir uma licena especial.
Achou que o que disse soou ridculo. Tanta pressa para se casar com uma mulher que conhecera naquela noite!
- Informarei  rainha e a quem quiser ouvir - disse sir Terence -, que voc e Quenella estavam comprometidos h muito tempo, mas nada pde ser resolvido, enquanto
estava na ndia e que agora Sua Majestade, com sua bem conhecida inclinao casamenteira, removeu todas as dificuldades e vocs gozaro sua lua-de-mel no Palcio
do Governo em Lucknow.
- Parece bem plausvel - Rex concordou.
- Ter que convencer principalmente o prncipe. Farei a comunicao ao embaixador. A melhor maneira  chamar a chancelaria imediatamente aps sua sada e dar as
boas-novas ao baro von Mildenstadt.
Rex hesitou:
- No seria melhor esperar, at que estivssemos casados?
- Sim, talvez voc tenha razo. At o ltimo momento, o diabo pode arranjar alguma desculpa para perseguir Quenella, ou mesmo se livrar de voc! No ponho a mo
no fogo por ele!
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. Deixe nosso casamento continuar em segredo, at que estejamos
alm-mar! - pediu Rex, achando a coisa toda absurda.
Como podiam se sentir ameaados pelo governante de um pequeno principado alemo, a ponto de terem que sair correndo de seu prprio pas? Mas tinha vivido muito tempo
com o perigo, para saber que  tolice subestimar os inimigos.
Tinha, tambm, um imenso respeito pelo julgamento de sir Terence: nunca veria perigo, onde realmente no existisse.
- Tudo combinado, ento?
- Sim. Isto , se Quenella concordar.
Todo tempo, Rex tentou for-la a dar sua opinio, porque sentiu que estava alheia a tudo que acontecia.
- Eu. . . concordo.
Agora, lembrando, Rex podia ouvir a relutncia em sua voz.
Era uma voz macia, pensava, macia e musical, e ainda que essas fossem suas caractersticas principais, havia algo que lhe escapava e, de certa forma, intimidava.
Ento, disse para si mesmo que uma coisa ele no seria nunca: intimidado pela esposa ou subserviente a ela.
Podia ser rica, podia estar oferecendo a ele muito mais do que ele poderia lhe oferecer, mas, ao mesmo tempo e nesse caso em particular, estavam salvando um ao
outro. Ou melhor, salvando sir Terence.
Quando o coche que o transportava parou diante do Traveller s Club, Rex Daviot constatou que no aguentaria ficar sozinho aquela noite.
Estava em Londres, no corao da capital, onde havia inmeras formas de divertimento para homens entediados, deprimidos ou, como ele, apreensivos em relao ao futuro.
A noite mal comeara e haveria muito tempo para dormir em sua viagem  ndia.
O cocheiro esperava que ele descesse, mas, em vez disso, gritou:
- V para o Empire!
Ento, sentando-se novamente, enquanto o cavalo comeava a andar, planejou uma noitada que sabia ser para um jovem subalterno isolado nas quentes plancies da ndia:
um desinibido, selvagem e exuberante divertimento.
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Quando Rex Daviot disse boa noite, Quenella subiu para o quarto.
Achava que sua tia podia estar acordada, esperando para saber o que tinha acontecido.
Sir Terence no comunicara nada  esposa sobre por que insistira que jantassem en
famillia, com Rex Daviot como nico convidado!
- Mas  claro que temos que oferecer uma festa ao major Daviot!
- protestara lady O Kerry. - Voc sabe como ele  atraente, e h muitas pessoas querendo encontr-lo.
Lanou um olhar malicioso ao seu marido, acrescentando:
- Apesar de toda a sua conversa secretssima com o major, digna de um romance de capa-e-espada, posso garantir, Terence, que um bom nmero de pessoas sabe que ele
faz parte do Servio Secreto Indiano e  heri de muitas aventuras estranhas!
- Nunca ouvi voc falar desse jeito! - sir Terence respondeu, spero.
- Estou apenas repetindo o que tenho ouvido pelas festas - respondeu ela, em tom magoado.
- Essas mulheres! Elas tagarelam mais do que em um bazar indiano! A esposa sorriu.
- Vejo, meu querido, que voc est sendo injusto, mas no entendo qual a razo de no podermos oferecer uma festa ao atraente major Daviot, com muitas mulheres maravilhosas.
Esperou para continuar:
- Quando ele esteve aqui, no ano passado, estava de caso com lady Barnstaple, mas suponho que j tenham rompido, no?
- Ele jantar sozinho conosco e com Quenella! - disse sir Terence. - E no quero mais discutir isso!
- Por que no posso, ento, convidar algumas pessoas para depois?
- insistiu lady O Kerry. - A duquesa disse, h apenas um ms, que havia encontrado Rex Daviot em Simla e que todas as mulheres estavam loucamente apaixonadas por
ele. No fico surpresa.  exatamente a espcie de heri arrojado por que eu me apaixonaria, se tivesse a idade de Quenella. . .
Parou, como se finalmente compreendesse:
- Ento,  por isso que voc o quer a ss? Como sou estpida! Nunca tinha pensado nisso! Mas,  claro, o que poderia ser melhor?
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Sir Terence no respondeu e lady O Kerry continuou:
S espero que Quenella seja um pouco mais delicada do que tem
sido nesta ltima semana. Comportou-se abominavelmente diante de lorde Antrim, quando o encontramos no parque, recusando todos os seus convites. Isso faz meu corao
doer, realmente!
- Por favor, Bett, faa somente o que peo! Quero um bom jantar para ns quatro e, depois, sugiro que use uma de suas desculpas tticas para se retirar mais cedo.
- Isso  demais! Quero saber o que voc est planejando.
.- Contarei depois que acontecer - prometeu, finalmente, sir Terence.
Embora tivesse tentado arrancar algo de Quenella, foi obrigada a esperar pacientemente em seu quarto, enquanto, perguntava para si mesma, que coisas estavam "acontecendo"
l embaixo.
Quenella, no entanto, no desejava contar a notcia de seu casamento  tia, com medo de que ela espalhasse a novidade para as amigas.
Entrou no quarto e, embora tivesse chamado a criada para que a ajudasse a se trocar, como de costume, sentou-se  penteadeira, olhando-se no espelho.
No conseguia, no entanto, ver o prprio rosto. O que tinha diante dos olhos era a expresso enlouquecida do prncipe, quando entrou inesperadamente em seu quarto
e se jogou sobre ela, antes que pudesse protestar.
Mesmo naquele instante, pensar no que havia acontecido deixava-a doente. At aquele momento, nunca sentira medo de ningum. Nem vira um homem perder o controle e
se tornar nada mais do que um animal.
Lutou com ele com todas as foras, mas percebeu, com uma espcie de terror angustiado, que tudo o que podia fazer era intil. Ento, quando ele agarrou suas roupas,
gritou e gritou novamente, debatendo-se, para impedir que ele cobrisse sua boca com as mos.
Pessoas vieram ajud-la e o prncipe foi levado para longe. Embora todos estivessem com pena e indignados, sua humilhao foi to degradante como o comportamento
do prncipe.
Sentiu que, ainda que mostrassem horror pelo que ele tinha feito, no fundo, achavam que ela tambm era culpada, por encoraj-lo.
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S Quenella sabia que ele no precisava de encorajamento. Estava, como lhe havia dito, loucamente apaixonado. No era um amor que tornasse qualquer mulher orgulhosa
ou vaidosa. Na verdade, no passava de luxria desenfreada, desejo de conquist-la e faz-la sua.
Lembrando de tudo, desde o incio, deu-se conta de que, no momento em que conheceu o prncipe Ferdinand, soube do perigo que ele representava e o evitou.
A princpio, a perseguio dele se limitou a apenas uma dana ou duas nos bailes mas no fazia ideia do que iria acontecer, quando aceitou o convite para a festa
no castelo de Windsor.
De fato, ele planejou tudo e, quando tentou lhe dizer a repulsa que sentia, ela, em vez de afast-lo levou-o  loucura de tentar violent-la.
Agora, estava prestes a se casar com um homem para poder fugir de outro!
- Eu o odeio! - disse Quenella ao seu reflexo no espelho. - Eu o odeio e juro que, se quebrar a promessa e tentar me tocar, eu o matarei!
Por um momento, pareceu haver um lampejo de fogo vermelho na escurido de seus olhos. Ento, completou:
- Se eu no o matar. . . ento... eu... me matarei!
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CAPITULO III

Sir Terence levantou sua taa:
-  felicidade de vocs! Que, acredito de todo o corao, os dois encontraro juntos!
Falava com tal sinceridade que foi impossvel a Quenella, que encarava suas palavras com ceticismo, no responder.
- Obrigada, tio Terence.
Ldy O Kerry enxugou uma lgrima.
- S gostaria que voc tivesse tido um casamento adequado: uma cerimnia em St. George, ou em St. Margaret s Westminster. Tive dez damas de honra, quando me casei.
- Formavam um bando bem ameaador - interrompeu sir Terence. Todos riram, e Quenella percebeu que o tio, com seu jeito hbil, conseguiu evitar uma cena sentimental,
to ao gosto da tia.
- Por mim, agradeo termos nos casado sem muito estardalhao disse Rex Daviot.
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No dia anterior, a rainha havia recebido Rex no Castelo de Windsor  o congratulado, no somente por sua misso na ndia, como pelo casamento.
- S lamento - disse ela, em tom de repreenso -, que acontea assim, s pressas.
- Vossa Majestade entende que  importante para mim voltar o mais breve possvel  ndia.
- Estou preocupada com as notcias que recebi, de que agentes russos infiltram-se no Tibete.
S mesmo a rainha, pensou Rex Daviot, para saber o mais secreto dos segredos, que, com certeza, tinham tentado esconder dela.
- No estamos certos de que os russos estejam atualmente em Lhasa, majestade. Mas o primeiro-ministro do Nepal, que sempre foi, como sabe Vossa Majestade, muito
amigo da Inglaterra, nos fez algumas aluses alarmantes.
- Foi isso o que eu ouvi e no preciso lhe dizer, lorde Daviot, quo desastroso ser se os russo ocuparem o Tibete, pois isso os deixaria
em posio de ocupar tambm o Afeganisto.
Qualquer um ficaria surpreso com o fato de a rainha estar to bem informada, e mesmo to interessada, em cada parte de seu vasto imprio.
Mas Rex Daviot sabia que a ndia estava em seu corao e que ela substitura seu criado pessoal, o escocs John Brown, que havia morrido, por um hindu chamado Munshi.
Conversaram por algum tempo ainda e, ento, Rex deixou o castelo, sabendo que esse encontro e seu ttulo de nobreza sairiam na "Gazette", na manh seguinte.
J com o ttulo de lorde Daviot, Rex se casou com Quenella e, por precauo de sir Terence, seguiriam  noite para Southampton, de onde sairiam de navio para Bombaim
e, finalmente, Calcut.
- Primeiro, vocs vo visitar o vice-rei em Calcut - disse sir Terence - e, ento, viajaro para Lucknow, de trem. Voc precisa tomar cuidado, Rex. Haver muita
alegria na ndia, pelo fato de voc estar se juntando ao augusto bando de governadores. Mas, ao mesmo tempo, haver tambm malcia, inveja e dio.
Fez uma pausa, antes de continuar:
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Mas o que  mais importante,  que haver uma boa dose de medo
para aqueles que sabem como voc pode ser duro.
Lorde Daviot sabia que o chefe se referia aos numerosos espies e agentes pagos pela Rssia, que havia desmascarado e, em alguns casos, eliminado, antes que pudessem
provocar prejuzos.
Era comum encontrar, em um pas conquistado, rebeldes e tipos que fariam qualquer coisa por dinheiro.
No passado, os russos tinham sido mestres em insulflar aqueles que queriam uma Guerra Santa, aqueles que desejavam livrar a ndia da Inglaterra e aqueles que eram
rebeldes pela prpria natureza.
O Servio Secreto Indiano era o melhor do mundo e aquilo que ficou conhecido como "O Grande Jogo" tinha sido servido por dedicados homens, que ofereceram os melhores
anos de suas vidas e, frequentemente, at suas prprias vidas, ao pas.
Naquela manh, quando imaginava que era o dia do seu casamento, Rex Daviot perguntou-se como encaixar uma esposa nessa sua vida interessante, mas perigosa.
Decidira que o fato de estar casado no o afastaria de suas atividades. No haveria problema, se o governador das provncias do noroeste desaparecesse por semanas,
ou meses a fio, como j tinha feito antes, com disfarces que nunca tinham sido descobertos.
Ao mesmo tempo, sabia que seus velhos amigos, que sempre o ajudaram no passado, iam querer continuar a fazer isso. As estranhas mensagens, provenientes de todas
as partes da ndia e de homens de toda espcie e condio, poderiam ainda ser dirigidas a ele.
Essa era uma das mais fantsticas e fascinantes partes do "Grande Jogo": a de que ningum, com rarssimas excees, tinha ideia da identidade do outro.
Eles eram apenas nmeros e, mesmo que, ocasionalmente, se encontrassem ou se ajudassem uns aos outros, em uma emergncia, s Rex e um outro homem conheciam seus
nomes ou sabiam onde encontr-los.
Isso,  claro, fazia com que ficasse extremamente difcil para os russos,
ou qualquer outro inimigo, desemaranhar os fios que formavam uma imensa rede de informantes,
controlados por um nico ingls.
Embora apreensivo quanto ao futuro, Rex Daviot teve que admitir,
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ao ver sua noiva, que seria difcil encontrar algum to bonita, mesmo procurando pelo mundo todo.
Por causa da necessidade de sigilo total, at que a cerimnia tivesse sido realizada, ele foi sozinho ao Registro Pblico de St. John s Wood no muito distante da
casa de sir Terence. Quenella chegou com os tios uns quinze minutos depois.
Quando ela entrou no abafado e escuro prdio do Registro Pblico, foi -como se iluminasse todo o local, e Rex viu que o oficial e seu escrivo, estonteados pela
beleza da moa, ficaram de boca aberta, olhando para ela.
No vestia o tradicional branco, mas um traje de viagem em seda e um casaco de veludo justo. Como no era supersticiosa, ou talvez num gesto de desafio, seu vestido
era verde-esmeralda e o chapu que usava estava enfeitado com penas de avestruz. Carregava um buque de orqudeas roxas e parecia, ela prpria, uma flor extica.
Quenella no olhou para ele diretamente, quando a cumprimentou, e Rex ficou imaginando se seria tmida ou estaria simplesmente o odiando e  ideia de se tornar sua
esposa.
No havia tempo para introspeco; o oficial estava esperando e eles se uniram como marido e mulher, depois de algumas poucas frases formais e sem a bno da Igreja.
Assinaram seus nomes e, ento, todos seguiram juntos na carruagem de sir Terence, para sua casa em St. John s Wood, onde havia champanhe e refrescos esperando por
eles.
Depois de sir Terence ter se empenhado em conseguir alguns sorrisos e at mesmo risadas, disse, olhando o relgio:
- Penso, Quenella, minha querida, que voc devia se aprontar para partir.
- Sim,  claro, tio - e saiu da sala, seguida pela tia. Sir Terence virou-se para Rex:
- Voc encontrar Archerson esperando na estao com as ltimas notcias que chegaram esta manh e duas cartas. Ficarei muito agradecido se entregasse uma delas
ao vice-rei e outra, ao comandante-em-chefe.
- Alguma coisa mais que queira que eu faa?
- Apenas continue o bom trabalho.
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Sua Majestade disse-me que havia notcias de agentes russos em
Lhasa. O senhor acredita que seja verdade?
Sir Terence deu de ombros:
 absolutamente impossvel tirar-se muita informao do Tibete,
mas torna-se bvio para mim que, se eles nos ocuparem na fronteira noroeste, ser mais fcil para ns relaxarmos com relao ao que est acontecendo no outro lado
do Himalaia.
Rex suspirou.
Sabia o tremendo esforo que fora, n passado, manter os russos afastados do Afeganisto. Mas, alm dos altos picos e passagens nevadas do Himalaia, existiam pases,
incluindo o Tibete, onde os russos podiam causar incrveis danos, se tivessem a oportunidade para isso.
Tinha certeza de que os rumores que ouvira sobre expedies russas em algum lugar perto do Tibete no tinham nada a ver, como se certificara, com pesquisas cientficas
ou religio.
De fato, ele tinha estado, pessoalmente, to envolvido com as tentativas de provocar os nativos de Passo Khyber, que no teve tempo de se concentrar em outra fronteira.
Como se soubesse os pensamentos que passavam por sua cabea, sir Terence falou:
- Eu invejo voc! Queria que Deus me. fizesse um pouco mais jovem! Parece-me que esto se abrindo muitas possibilidades novas, que no foram exploradas por ns at
agora!
- Eu gostaria muito que pudesse vir comigo. Mas agradeo a Deus termos em lorde Curzon um vice-rei que passou muitos anos de sua vida na ndia e compreende as dificuldades.
- Ele  um homem estranho. Brilhante mas, ao mesmo tempo, o pior inimigo dele mesmo.
- Concordo - disse Rex. - No entanto, acredito que, quando for escrita a histria da ndia, teremos muito que agradecer a ele.
- Estou certo disso.
Ocorreu a Rex que essa era uma conversa estranha para se ter alguns minutos aps o casamento e, como se sir Terence tivesse pensado a mesma coisa, olhou novamente
para o relgio.
- Voc precisa partir em poucos minutos. No pode perder seu trem.
- No,  claro que no.
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A porta foi aberta e ambos se viraram, esperando ver Quenella. Mas em vez dela, entrou um criado, anunciando aos dois homens, atnitos
- Sua Alteza Real, prncipe Ferdinand de Schertzenberg! Houve um pesado silncio antes que sir Terence dissesse:
- Vossa Alteza Real!  uma grande surpresa!
- Como o baro von Mildenstadt no recebeu resposta  sua car convidando sua sobrinha, vim para perguntar se b alguma razo pa essa negativa.
O prncipe falava em tom rude.
Era um homem alto e elegante, de aproximadamente trinta e cinco anos, e tinha aquele orgulho e aquela arrogncia alemes, que
muitas pessoas achavam desagradveis.
Embora vestisse roupas comuns, Rex achou que era impossvel pensar nele, exceto como um soldado ou um governante ciente de sua prpria importncia.
O prncipe esperava pela resposta de sir Terence, que tentava ganhar tempo.
- Posso apresentar lorde Daviot a Vossa Alteza?
- Daviot? Acho que conheo o nome. Claro, claro que sim! Tenho ouvido falar do senhor com relao  ndia.
-  correto, sir!
- Mas no sabia que possua um ttulo.
-  muito recente, sir.
-  por isso - disse o prncipe. - Minha memria nunca falha. Era uma afirmao que, obviamente, nunca lhe contestaram. Ento, ignorou a presena de Rex e disse
 sir Terence:
- Agora, a respeito do convite, estou ansioso, e tambm a baronesa von Mildenstadt, para que sua sobrinha possa encantar o baile, dando-me a honra.
-  com pesar, sir, que Quenella no pode aceitar o gentil convite da baronesa.
- Por que no?
A pergunta saiu como um tiro de revlver, e havia no olhar do prncipe algo que devia ter feito muitos de seus compatriotas tremerem diante dele. ia
- Quenella... - comeou sir Terence. Quando comeava a falar, abriu-se a porta e ela entrou na sala.
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Estava vestida com a mesma roupa do casamento, exceto que agora
usava tambm uma pesada capa de veludo forrada e debruada com peles. ja cabea, em vez do chapu de penas, uma pequena touca, atada sob o queixo por um lao de fitas.
parecia encantadora. To encantadora que a carranca do prncipe se transformou em olhos brilhantes, que pareciam querer devor-la.
Estava atnita de encontr-lo ali, mas, com uma compostura que lhe era admirvel nessas circunstncias, cumprimentou-o.
Tenho tentado v-la h dias - disse o prncipe, num tom de voz
que s ela ouviu -, e vim para saber por que no houve resposta ao convite de Sua Excelncia.
Avanou na direo da moa enquanto falava, de uma maneira que muitas mulheres se sentiriam intimidadas.
Mas Quenella estava totalmente controlada, quando disse:
- Espero que meu tio tenha lhe dito a razo.
- No, ele no disse. E gostaria de ouvir de sua prpria boca. Olhava para a boca de Quenella de um jeito que deu ganas a Rex de
surr-lo.
Sem pressa, levantando a cabea, Quenella caminhou em sua direo. Quando estava bem ao seu lado, disse:
- Gostaria de apresentar Sua Alteza Real ao meu marido!
Sua voz no tremia e somente a aguda percepo de Rex notou que, por baixo de seu controle, ela sentia medo.
- Casada?
No havia dvidas de que o prncipe estava desnorteado.
- Casada? - repetiu. - Como pode ter casado?
- Minha sobrinha e lorde Daviot casaram-se esta manh - explicou sir Terence - e esto partindo neste momento para a ndia. Estou certo de que Vossa Alteza Real
gostaria de oferecer-lhes congratulaes e votos de felicidade.
O prncipe parecia ameaador, como um animal que tivesse sido impedido, no ltimo momento, de saltar sobre sua vtima.
Por um longo momento, pareceu que ele no sairia dali. Ento, quando sir Terence estava prestes a quebrar o silncio, sua esposa entrou na sala.
- Eu vinha lhe dizer que Sua Alteza Real havia chegado - disse lady O Kerry, em voz clara e algo artificial, que usava nas ocasies sociais.
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- Como o senhor  gentil, sir, e quo delicioso  v-lo desejando felicidades a Quenella, em sua nova vida.
Fez-lhe uma reverncia, enquanto falava, colocando-se na frente do prncipe e, dessa maneira, servindo de barreira entre seus olhos ferozes e o rosto plido de Quenella.
- Naturalmente, lady O Kerry, mas  uma grande surpresa. Por que ningum me contou?
Havia suspeita em seus olhos, como se tivesse sido enganado por alguma razo especial.
- Lorde Daviot chegou da ndia somente h trs dias atrs - explicou sir Terence - e ontem foi obrigado a visitar a rainha em Windsor e receber sua aprovao para
o novo cargo de vice-governador das provncias do noroeste.
O prncipe ignorava o dono da casa e, novamente, dirigiu-se diretamente a Quenella.
- Est realmente indo para a ndia?
- Neste momento - Rex interferiu, antes que ela pudesse responder, - E estou certo de que Vossa Alteza Real ir entender que precisamos partir imediatamente, seno
perderemos nosso trem.
Caminhou na direo de lady O Kerry, segurando-lhe as mos.
- Obrigado por toda a sua gentileza. Espero que no demore muito a convencer seu marido a visitar-nos em Lucknow.
- Naturalmente. No h nada que eu deseje mais. Quenella bejou-a.
- Adeus, querida tia, e muito obrigada por tudo.
Para seguir o marido, que j estava fora da sala, teve de passar pelo prncipe. Ele olhava para ela e Quenella teve a sensao de que era como um homem que, tendo
recebido um soco quando menos esperava, planejava a vingana.
Fez uma mesura.
- Adeus, Alteza!
- Ento  verdade? - perguntou, em voz baixa. - Realmente verdade que est partindo para a ndia?
Quenella no respondeu. Simplesmente, dirigiu-se para a porta.
- Espere!
Sir Terence apressou-se em seguir a moa:
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Se Vossa Alteza Real puder me desculpar, irei com minha sobrinha
at a carruagem.
No esperou pela resposta do prncipe. Saiu e fechou a porta.
No vestbulo, Rex j estava vestindo o casaco. A seu lado, muito tenso, o ajudante-de-campo do prncipe esperava. Nada de ntimo poderia ser dito naquelas circunstncias
e Quenella pde apenas beijar os tios, antes de entrar na carruagem.
Rex juntou-se a ela, e sir Terence e lady O Kerry, com um leno nos olhos, acenaram para eles.
Rex sentou-se ao lado da esposa:
- Foi, certamente, uma surpresa inesperada e desagradvel!
- Ele teve o atrevimento de aparecer sem ser convidado, com a inteno de me obrigar a aceitar o convite.
Agora, tudo estava acabado, e havia um tremor diferente na voz de Quenella.
- Esquea-o! - disse Rex. - Os caminhos de vocs nunca mais se cruzaro, e pouco me importa que ele tenha sido derrotado.
Quenella sentiu um arrepio.
- Espero que voc esteja certo, mas tenho a impresso de que ele  o tipo de animal que lutar at o fim, antes de admitir a derrota.
- Uma espcie particularmente repulsiva de animal. Mas asseguro-lhe de que  impossvel para ele, em sua posio, fazer algo mais, alm de aceitar o inevitvel.
- Voc no acha que ele pode... prejudicar tio Terence?
- Agora, vai ser difcil para ele conseguir. Pode tentar, mas duvido de que tente, se no tem mais nada a ganhar.
Ficaram um momento em silncio. Ento, Quenella disse:
- Realmente, acho que devo agradecer a voc por me ter livrado daquela criatura horrvel.
- Penso que seria embaraoso para ns dois ficarmos elogiando o que um fez pelo outro - Rex respondeu, em tom de brincadeira. Pessoalmente, sempre detestei ser forado
a agradecer a algum, desde que tinha seis anos, quando era forado a escrever aos meus padrinhos, antes que me deixassem brincar com os presentes que eles haviam
me mandado pelo Natal.
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Havia quase a sombra de um sorriso nos lbios de Quenella, quando disse:
- Sofri muito desse mesmo jeito, mas acho que  uma lio de boas maneiras que as crianas tm que aprender.
 medida que falava, Rex pensava que, da maneira como tinha acontecido aquele casamento, no haveria crianas a quem ensinar
boas maneiras. A ideia tambm devia
ter passado pela cabea dela, pois virou, se para a janela, embaraada. Depois, comentou, tentando aparentar naturalidade:
- Espero no perdermos nosso trem.
- Temos bastante tempo - ele respondeu, tirando o relgio do bolso -, mas espero que seu tio no seja como minha me, que sempre tomava o trem que passava antes
daquele no qual devia embarcar.
- Certamente,  melhor do que perd-lo.
Ficaram em silncio, e Rex imaginou se esse era o tipo de conversa formal que teria que aguentar para o resto de sua vida de casado.
Haveria sempre armadilhas, haveria sempre o perigo de um passo em falso, de uma observao de duplo sentido, que poderia causar
embaraos.
Perguntou-se, de repente, se valia a pena.
A ndia valeria, realmente, o sacrifcio de sua liberdade?
Ento, viu que no era somente a ndia a responsvel por seu casamento, mas tambm a carreira que sir Terence tanto custara a construir.
Por um momento, esqueceu Quenella, e pensou em um certo Pathan
- C.17, do "Grande Jogo", cujos relatrios haviam salvo muitas vidas, e que, sem dvida, estaria esperando por ele em Lucknow.
Havia tambm um bengali em Calcut e um modesto comerciante em Bombaim, e dzias de outros espalhados pelas vastas e agitadas plancies da ndia, tecendo os fios
da teia de aranha sobre a qual os russos voavam e acabavam caindo, quando menos esperavam.
Eram pessoas que ele no podia perder. Eram pessoas nas quais acreditava e que acreditavam nele. Sabia que significavam mais do que uns poucos momentos desagradveis
com uma mulher com quem no desejava ter se casado e que no desejava ter se casado com ele.
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O navio no qual lorde e lady Daviot estavam viajando era exatamente como dezenas de outros, que transportavam duzentos mil passageiros
por todo o mundo, durante o ano. Um dos milhares de pontos
vermelhos do mapa que assinalava cada navio ingls no mar.
rex observou atentamente os passageiros do "Bezwada", quando embarcaram em Southampton.
Os anglo-hindus eram facilmente identificveis. Os jovens cadetes formavam grupos animados e confiantes; os veteranos eram bronzeados,
de ombros cados, adoecidos
por milhares de febres.
As fatigadas esposas "indianas", com a pele ressecada e as faces plidas, voltando para os maridos, aps um breve ms na Inglaterra, onde estiveram para ver as crianas.
Havia, naturalmente, as novas recrutas da "Esquadra da Pescaria", jovens garotas risonhas, louras, exageradas, esperando que a ndia lhes desse um marido, o que
era o comeo e o fim de suas ambies.
Para centenas de famlias inglesas, a viagem para o Oriente era parte de suas vidas, como uma sesso anual com o dentista. Geralmente encontravam amigos a bordo
e havia sempre, como Rex sabia, manobras infindveis para tentar viajar com a mesma tripulao que havia cuidado to bem deles, na viagem anterior.
Acima de qualquer coisa, havia a sensao de aventura, quando algum navegava para o longnquo Leste, em navios que tinham nomes pomposos, estruturas gigantescas
novas em folha, vigias alertas nas torres e a bandeira vermelha flutuando na popa.
Sir Terence tinha feito todos os arranjos e, certamente, usado sua influncia para conseguir, no ltimo momento, para Rex e Quenella, duas das melhores cabines,
com uma sala de estar.
Rex deu-se conta, to logo embarcou, de que era um viajante j bastante acostumado, assim como Quenella. Ela examinou sua cabine e pediu que o camareiro providenciasse
algumas pequenas coisas que haviam sido esquecidas. Escolheu rapidamente, e sem hesitao, quais as peas da bagagem precisaria para a viagem e quais as que podiam
ficar no poro.
Ento, deixando o marido ocupado em se instalar, fechou a porta. Rex entendeu que no s estava se isolando dele, como tambm do passado e de qualquer coisa que
pudesse perturb-la ou deix-la ansiosa.
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Pensara, durante o trajeto para Southampton, que no era de bon augrio que o prncipe tivesse percebido que seu casamento era
uma representao.
No entanto, estava satisfeito por terem dominado a situao, impedindo Sua Alteza Real de dizer qualquer coisa e deixando-o certo de
que era uma pgina virada na vida de Quenella.
Viu, pela expresso de seus olhos, que todo o seu ser, todos os seus desejos e sensaes estavam concentrados na moa. Ela havia assumido em sua vida uma posio
de tal importncia, que seria duro para ele, agora, contentar-se em outras mulheres.
Rex sabia o que significava para algum como o prncipe, um alemo sem imaginao, cair de seu pedestal por causa de algo que ele chamava de amor. Pronto a deixar
de lado sua dignidade e esquecer tudo, a no ser que desejava uma mulher, com certeza essa experincia deixaria cicatrizes por uns bons anos, ou, talvez, pelo resto
da vida.
Mesmo levando em considerao a beleza de Quenella, era difcil entender como conseguiu produzir um efeito to devastador, sem ter feito qualquer esforo para atrair
o prncipe. Talvez, pensava Rex, fosse sua grande indiferena, sua reserva e sua frieza, que tivessem levado Ferdinand quase  loucura.
De qualquer forma, Rex temia que o incidente com o prncipe fosse apenas o primeiro de muitos outros, que tornariam a vida em comum mais difcil do que estava parecendo
no momento.
Haviam embarcado uma hora antes do jantar e, cinco minutos antes de o sino anunciar aos passageiros que a refeio estava servida, Quenella saiu da cabine, entrando
na sala de estar.
Sir Terence tinha enviado flores e frutas, e uma garrafa de champanhe estava aberta, dentro de um balde de gelo.
Quando Quenella entrou, Rex viu que havia se trocado para o jantar, o que era incomum na primeira noite no mar. Ela, no entanto, no cometera o erro de usar um traje
de noite completo. Usava um atraente vestido com um lao azul-escuro e duas orqudeas cor de prpura presas na cintura.
- Pensei que voc gostaria de uma taa de champanhe - disse Rex.
- Que gentil! Mas s meia taa, por favor. Rex serviu o que ela pedira e, ento, perguntou:
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Est se sentindo melhor?
Levantou suas sobrancelhas, como se estivesse surpresa com a pergunta.
Voc dificilmente ficaria imperturbvel - explicou ele - depois
de se casar e, tambm, de ter um encontro com um prncipe real apaixonado.
pensou, por um momento, que ia ficar zangada, mas ela riu.
.- No foi um dia comum em minha vida.
- Nem na minha. Por isso, vamos brindar a um futuro menos turbulento; pelo menos, at chegarmos na ndia.
Quando se sentaram para jantar, convidados para a mesa do capito, Quenella perguntou:
- Gostaria, se fosse possvel, que voc, no s me contasse alguma coisa sobre a ndia, durante nossa viagem, mas tambm me desse algo para ler. Trouxe alguns livros
comigo, mas pode ser que no contem o que desejo saber.
- E o que voc deseja saber?
- Naturalmente, desejo entender o povo que voc vai governar.
- com certeza, os livros serviro! Estou surpreso com o fato de seu pai nunca a ter levado  ndia.
- Papai estava muito ocupado, ganhando dinheiro em outras partes do mundo.
Lanou a Rex um olhar sob os longos clios, antes de continuar:
- Seria difcil imaginar dois irmos to diferentes como papai e tio Terence.
- De que maneira?
- Papai era extremamente ambicioso, materialista; enquanto que tio Terence, sinto isso, dedica-se a um ideal.
-  verdade, e uma das coisas que voc vai encontrar na ndia  um grande nmero de pessoas, tanto inglesas quanto hindus, para as quais os ideais significam mais
do que qualquer outra coisa.
-  o que gostaria de encontrar, e  sobre isso que quero aprender com voc. Sinto que a ndia me far muito bem, espiritualmente.
- Por que pensa isso? Ela hesitou um momento:
- Tenho imaginado muitas coisas sobre o pas, sobre o budismo,
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que conheo um pouco, e estou certa de que existe na sia uma sabedoria secreta que o Ocidente nunca conheceu.
Rex estava surpreso. Nenhuma das mulheres com quem tinha conver sado sobre a ndia demonstrou qualquer interesse por aquelas coisas
que tanto o fascinavam: os vedas,
o snscrito, que somente interessava aos acadmicos, e toda a estrutura religiosa que era a base da vida indiana, em todos seus variados e coloridos aspectos.
- Tenho comigo alguns livros que, penso, voc achar interessantes. E, quando estivermos na ndia, ser fcil para voc encontrar pessoas que expliquem tudo que
quiser saber sobre as diferentes religies.
Enquanto falava, pensava que era provvel que a curiosidade de Quenella no sobrevivesse ao redemoinho social, s trivialidades e aos mexericos, coisas com as quais
as mulheres inglesas preenchiam suas vidas.
Como muitas delas pouco ou nenhum contato tinham com os hindus, era inevitvel que dedicassem seus dias s coisas mundanas, reclamando das mudanas de clima e da
incapacidade dos criados.
Quenella fez mais uma poro de perguntas, como se quisesse convenc-lo de que seu interesse era genuno, mas Rex continuava desconfiado.
Sabia, por experincia, que as mulheres, quando queriam impression-lo, sempre puxavam conversa sobre seu assunto preferido. No entanto, no podia compreender por
que sua estranha esposa se daria a esse trabalho, s para lhe chamar a ateno.
Quando o jantar terminou, ela se levantou, para voltar  cabine.
- Poderia me dar os livros agora?
- Naturalmente. J os desempacotei e coloquei numa estante. Eram apenas trs volumes que ele sempre levava em suas viagens: um,
sobre budismo; outro, sobre mitologia indiana; e o terceiro, sobre o Tibete.
Incluiu este ltimo na bagagem, antes de ir para a Inglaterra, porque sabia que o Tibete seria um dos assuntos de suas conversas com sir Terence e queria saber mais
sobre aquele estranho pas, alm do Himalaia.
Agora, ocorria-lhe que devia ter sido o destino que o fizera escolher
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esse volume em particular: o que aprendeu seria muito til para
o futuro. Lucknow no ficava longe das fronteiras do Nepal:  noroeste, estava
fibete e,  sudoeste, Sikhim, que era o caminho para Gantzi, sobre o ual devia discutir com o vice-rei.
Quenella apanhou os livros com ele e Rex pensou que, se ela fosse uma pessoa comum, diria que estava excitada com o fato de os ter; mas
era difcil afirmar alguma
coisa sobre os sentimentos daquela mulher, cuja discrio era uma muralha de ferro.
- Obrigada - disse ela, com frieza. - Boa noite.
J que essa era a noite de seu casamento, Rex gostaria de, pelo menos, ter uma conversa com ela, para lhe dizer que no precisava ter medo dele, ou do futuro, juntos.
Mas ela no lhe deu tempo para cortesias.
Antes mesmo que pudesse lhe abrir a porta, entrou na cabine e Rex ficou sozinho na sala de estar. Serviu-se de uma taa de champanhe da garrafa que ainda estava
no balde e, depois de beber metade, saiu para o convs.
Fazia uma noite fria de fevereiro, mas o tempo estava claro. Podiam-se ver ainda as luzes da Inglaterra, ao longo do canal, e Rex sentiu saudades. Gostaria de ter
ficado mais tempo em casa, talvez para uma caada, e principalmente para ver o pai.
Mandou-lhe uma carta educada, desculpando-se, pensando que ficaria zangado, se soubesse que havia estado em Londres e no o procurou.
"Poderei partir mais tarde no prximo ano", escreveu, "e espero receber melhores notcias sobre sua sade."
Enviou a carta no dia anterior, assim como outra, para o Agente de Estado, dando vrias instrues, que agora podiam ser cumpridas, graas ao dinheiro de Quenella.
Essa lembrana fez com que se sentisse culpado. Ento, disse a si mesmo que, afinal, estava gastando o dinheiro dela em projetos que tambm lhe diziam respeito.
Agora, a casa dele era tambm o lar de Quenella. Mas no estava seguro se isso conviria a ela, como no estava certo de nada sobre a esposa.
De qualquer maneira, devia tentar faz-la feliz, e que o primeiro passo para isso seria tentar ented-la.
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- Casamento  uma coisa - pensou, sorrindo -, sobre a qual sou lamentavelmente ignorante.
No havia muitos assuntos sobre os quais pudesse dizer isso. Nos ltimos cinco anos tinha evitado o menor envolvimento com
mulheres solteiras. As nicas mocinhas
casadouras que conhecia eram as que formavam as "Esquadras de Pesca". Havia muitas delas ali mesmo,
no navio, mas Quenella era certamente muito diferente daquelas
jovens ruidosas.
A vivacidade delas, os olhares provocantes que lanavam a qualquer homem, sua bvia ignorncia do mundo e, em muitos casos, a falta
de educao, faziam-nas to diferentes
de sua esposa, como a gua do vinho.
Sentada  sua frente, durante o jantar, Quenella parecia-se com as orqudeas que trazia no vestido.
No, essa no  a melhor comparao. Parece mais com uma bocade-leo - disse para si mesmo, e lembrou-se das que tinha visto: douradas, com as ptalas manchadas
de negro.
Eram exticas, e alguma coisa nelas sugeria o perigo que podia haver em sua beleza pura.
Isso  Quenella, pensou, quase com satisfao. Uma beleza que  suficientemente perigosa para excitar a imaginao do homem que quiser possu-la.
Sorriu da prpria fantasia, e a ouviu algum dizer, a seu lado:
- Rex, Rex querido!  voc mesmo? No sabia que estava a bordo!
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CAPTULO IV

- Devo dizer que voc j est parecendo um lorde - disse lady Bernstaple, com um brilho atrevido nos olhos azuis. - Um ttulo era s o que faltava para completar
o seu charme.
Rex no respondeu. Estava acostumado com as observaes provocadoras de Kitty Barnstaple.
- No concorda comigo, lady Daviot?
Houve uma pequena pausa, antes que Quenella respondesse, muito sria:
- No sei. . . nunca tinha pensado nisso. Kitty riu:
- Vai descobrir, querida, que muitas mulheres concordam comigo. Rex as atrai, como um pote de mel atrai as abelhas.
- Voc me deixa embaraado!
Levantou-se da cadeira, em direo  mesa, para encher novamente a taa de Kitty.
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No estava gostando nem um pouco da atitude familiar que ela, de propsito, estava tomando diante de Quenella. Desde o momento
que que o encontrou a bordo, Kitty
grudou-se a ele, sem dar a menor i portncia ao fato de estar casado.
Tinham tido um ardente, mas rpido romance, no ano anterior, em Simla.
Na poca, era no apenas desejvel, mas conveniente que Rex pssasse por um simples soldado deixando seu regimento.
Todo vero, o vice-re, acompanhado por toda a alta sociedade da ndia, mudava-se para Simla, um dos lugares mais extraordinrios do mundo.
No era propriamente uma cidade bonita. Situada entre montanhas, no lado sul de uma cordilheira, parecia mesmo com qualquer estao de guas inglesa, exceto pelo
fato de que os altos picos que se avistava eram os do Himalaia.
O ar  que a tornava especial: cortante e rarefeito o bastante para fazer com que os visitantes arfassem na
primeira vez que subissem escadas, e to ardente, que
deixava todo mundo mais animado e alerta do que de costume.
Isso, inevitavelmente, fez com que Simla comeasse a se tornar, no s um lugar de divertimento febril e incessante, mas tambm um recanto perfeito para encontros
amorosos.
Quando o vice-rei e sua corte de quase trezentas pessoas se mudavam para l, Kitty Barnstaple era, sem dvida, a mais atraente e a mais cortejada das damas.
Desde o primeiro momento em que viu Rex Daviot, ela deixou claro que no o desejava apenas como mais um amante: ele era, isto sim, o homem de seus sonhos.
Rex estava acostumado a que as mulheres se apaixonassem por ele, mas Kitty era bem diferente. Por trs da aparncia frvola, possua esprito e inteligncia, o que
no era comum nas outras damas da corte. Era tambm uma mulher bastante atirada para perseguir o que queria. Assim, uma noite, foi ao chal dele, usando apenas uma
camisola transparente sob o casaco de peles.
Aquele foi um vero de loucura e paixo, mas ao deixar Simla, Rex deu o caso por terminado e nunca mais a procurou.
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Kitty, no entanto, no parecia disposta a aceitar isso. Nem mesmo agora
que ele se achava, supostamente, em lua-de-mel. Ha segunda noite, depois de o encontrar a bordo,
juntou-se a ele no convs superior. Rex queria ficar sozinho mas ela apareceu, envolta
num casaco de marta e com um vu esvoaante sobre os cabelos, que emoldurava
seu rosto picante e travesso.
- Perdi voc, Rex - disse em voz baixa. - Tantas vezes pensei naquele pequeno quarto sob as estrelas, que para mim era o cu na terra. Oh, Rex!
Era um grito, uma splica, um convite. Mas, assim que ela encostou o rosto no ombro dele e olhou para o mar, Rex disse, calmamente:
- No, Kitty!
- No?
- Somos ambos bastante inteligentes para saber que no vale a pena revolver velhas cinzas.
- Somente se o fogo estiver morto. Esperou e, sem ter resposta, insistiu:
- Est morto, Rex?

Ele tambm se fazia essa pergunta. Lembrou-se da maciez dos braos de Kitty, da volpia de seus lbios, do perfume de seus cabelos. Ento, pensou consigo mesmo que,
por mais desagradvel que fosse seu casamento, deveria representar seu papel como um cavalheiro.
No havia necessidade de dizer nada. Kitty o conhecia o suficiente para entender seus sentimentos. Deu um profundo suspiro e o deixou sozinho olhando para o mar
cinzento, que se tornava turbulento,  medida em que deixavam o canal ingls.
Felizmente, Rex e Quenella eram ambos bons marinheiros e, embora houvesse pouca gente no salo de jantar, nos dias seguintes, no perderam uma s refeio. Para
sua surpresa, o mesmo aconteceu com Kitty.
Era inevitvel que, no salo vazio, ela se aproximasse deles e Rex percebeu, aliviado, que sua tagarelice e suas gargalhadas relaxavam a tenso existente entre ele
e a esposa.
Kitty passou, inclusive, a frequentar a sala de estar particular dos Daviot.
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- Espero que goste da ndia, lady Davot. No  um pas onde possa ficar indiferente.  como uma pessoa, que a gente ama ou
odeia.
- Estou ansiosa para chegar.
- Mas deixe que eu a avise de que a ndia  uma rival para sua vida de casada - continuou Kitty.
Sentada numa poltrona, segurando uma taa de vinho, ela cruzou as pernas, mostrando a ponta dos sapatos pretos e um excesso de laos sob o vestido de seda.
Havia um brilho cintilante em seus olhos azuis e o cabelo loiro estava penteado, como se ela fosse a um baile.
Era muito bonita e desejvel, e poderia facilmente mexer com os sentidos de um homem, pensou Rex. Bem o oposto da esposa, cuja beleza era to fria como as neves
do Himalaia. Mais uma vez, imaginou se haveria qualquer tipo de fogo sob aquela aparncia gelada.
- Nunca conheci um homem que amasse tanto um pas como seu marido ama a ndia - continuou Kitty. - Voc ter que ser muito compreensiva, para suportar os dias em
que ele estiver trabalhando vinte e quatro horas, sem falar com voc, ou desaparecer de maneira misteriosa!
Riu, sem dar tempo para Quenella responder.
- Voc nunca ficar sabendo se foi algum houri esquisito que o atraiu, ou simplesmente uma rebelio ameaadora entre alguns nativos, que no tm nada melhor para
fazer.
- Pare de tentar amedrontar Quenella - interrompeu Rex. - Ela vai ter que se adaptar a muitas coisas e  claro que estarei l, para ajudar.
Kitty ignorou o comentrio.
- Rex est tentando tranquiliz-la, mas lembre-se do meu aviso e no deixe que se ausente por muito tempo, mesmo que tenha a mais plausvel das desculpas.
Rex sabia que Kitty no era maldosa a ponto de tentar provocar problemas entre ele e Quenella, mesmo estando magoada por sua indiferena e com cime da mulher que
se casara com seu antigo amor. Alm do mais, no considerava o casamento uma instituio sagrada. Nem mesmo um vnculo muito srio.
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O marido de Kitty era um homem condescendente, que deixava a mulher seguir a prpria vida, desde que isso no interferisse em seu casamento.
Charles Barnstaple era rico, agradvel e popular. Foi para a ndia por
uma nica razo: as delcias do esporte. Caa ao tigre, ao javali, plo. Podia ser encontrado
onde houvesse o melhor esporte e, ainda que amasse Kitty, dizia francamente que as mulheres eram um incmodo, quando o homem queria se dedicar s atividades esportivas.
Estavam no quarto dia de viagem, e um vento forte fazia acrobacias com o navio, quando Quenella entrou na sala de estar, onde Rex trabalhava.
Tinha uma grande quantidade de papis para organizar, antes de chegar  ndia, e foi com alvio e surpresa que percebeu que Quenella no o atrapalharia. Ela preferiu 
ficar lendo, longe dele e das outras mulheres, que tagarelavam sem parar.
Conversavam s refeies, mas na maior parte do tempo viviam vidas completamente separadas. Sob esse ponto de vista, ela era uma tima companhia.
A viagem para a ndia levaria trs semanas, mas Rex estava comeando a achar, enquanto mexia nas pilhas de documentos que sir Terence lhe tinha dado, que necessitava
de cada uma daquelas horas.
Levantou os olhos do que escrevia. Embora ela no tivesse falado nada, percebeu que Quenella tinha algo a lhe dizer.
Ela no estava em p, pois isso era impossvel, do jeito que o navio jogava. Sentara-se numa cadeira perto da escrivaninha e olhava para ele.
- O que aconteceu? Posso fazer alguma coisa por voc?
- Gostaria de lhe perguntar algo, se tiver tempo para me ouvir. Rex largou a caneta.
- Desculpe ter sido to pouco atencioso ultimamente.  claro que tenho tempo.
Quenella olhou para o livro que segurava no colo e ele reconheceu um dos que lhe havia dado, sobre mitologia hindu.
- Est gostando? H outros livros mais detalhados e melhores. vou conseguir para voc, quando chegarmos  ndia. Esse, como pode notar pla aparncia,  uma das
minhas companhias preferidas nas viagens.
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- Acho-o fascinante! Foi por isso que quis perguntar a voc se posso aprender urdu.
- Urdu?
De todas as mulheres que conhecia, no se lembrava de uma inglesa que quisesse falar a lngua do pas
para onde emigrara, com exceo de algumas palavras bsicas, necessrias para dar ordens aos criados.
Como no respondeu logo, Quenella pensou que estava hesitante.
- Sou muito rpida para aprender lnguas. Falo cinco, quase fluentemente, e gostaria muito de poder entender o que dizem as pessoas, em sua provncia.
-  claro.
- Pensei, talvez, que houvesse algum a bordo que pudesse me ensinar. Ouvi o comissrio dizer que h vrios hindus na segunda e terceira classes.
Seria,  claro, impossvel para qualquer hindu, a no ser um prncipe, viajar de primeira.
- No precisa. Eu ensino - disse Rex, calmamente.
- No, por favor, no quis dizer isso. Sei como est ocupado, que tem muito o que fazer.
- Eu gostaria de ensinar. E  importante que voc aprenda da maneira certa e entenda o quanto a lngua varia, de uma casta para outra, em diferentes partes do pas.
Pela primeira vez, desde que a conheceu, viu seus olhos brilharem.
- Se voc. . . puder fazer isso. .. Talvez baste me dar livros para ler, ou mesmo. . . tarefas. Assim, no vou me tornar um incmodo.
- Voc nunca seria um incmodo. Mas tem uma condio,
- Qual?
- Se achar as lies cansativas, ou perceber que no valem o esforo, vai ser franca e dizer.
- Claro. E voc deve fazer o mesmo, se me achar muito estpida, e, nesse caso, arranjar outro professor para mim.
Comearam imediatamente, pois Rex notou que Quenella estava ansiosa, e logo descobriu que ela no estava se gabando, quando disse que tinha facilidade em aprender
lnguas.
Para sua surpresa, ela falava russo to bem como as lnguas europeias mais comuns.
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- Sempre quis visitar o pas de minha bisav - explicou Quenella _ e como papai estava sempre ocupado, eu mesma contratei professores e cuidei da minha educao.
Deu um sorriso infantil:
- S tenho medo de que, por causa disso, haja falhas lamentveis na minha cultura. S me dediquei s matrias que me interessavam.
- E quais eram elas?
- Geografia, costumes dos povos de vrias partes do mundo e suas religies.
- Gosta realmente disso?
- Muito!
- Acho espantoso.
- Por qu?
- Porque so assuntos incomuns para uma mulher.
- O que voc est dizendo  que acha que tais estudos so muito pesados e muito eruditos para nosso intelecto inferior.
- Voc est colocando palavras na minha boca - protestou Rex.
- Mas foi o que pensou.
- Est bem, concordo. Acho que muitas mulheres so charmosas, mas seus pensamentos raramente so muito profundos. A maioria das inglesas, como voc sabe bem,  extremamente
mal-educada.
-  porque, at recentemente, os pais gastavam todo o dinheiro educando os preciosos filhos, e as filhas eram orientadas por simples governantas, que sabiam tanto
ou menos do que elas.
- Voc me surpreende!
- Acha que estou querendo ser alguma herona da causa das mulheres oprimidas? Do jeito que as mulheres so tratadas, em vrias partes do mundo que j visitei, no
acredito qu precisem de mrtires, mas de uma lder, para incit-las  revoluo.
Rex levantou as mos, protestando:
- Agora, voc no s me surpreende, como me deixa horrorizado. Tenho ouvido falar de mulheres militantes, que fazem campanha pelos direitos femininos, mas nunca,
em meus piores sonhos, imaginei que ia me casar com uma!
- Tenho opinies muito srias a esse respeito!
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- Precisa, ento, aprender o mais rpido possvel a submisso da mulher indiana.
- Agora, sei o que espera de sua esposa.
- No exatamente.
- Talvez a razo por que nunca se casou seja essa: nunca encontrou algum suficientemente dcil e submissa.
Rex divertia-se com a pretenso de Quenella em saber o que ele queria de uma esposa. Ainda mais, porque estava totalmente enganada.
Na verdade, toda vez que pensava em casamento, o que era raro, tinha certeza de que uma mulher de cabea vazia acabaria por entedi-lo
em poucas semanas.
Nos dias que se seguiram, descobriu que Quenella era absolutamente insacivel, no s na sua determinao de aprender o urdu, como tambm em descobrir tudo sobre
a ndia.
Pediu ao comissrio que lhe trouxesse todos os livros que pudesse encontrar a bordo, e uma estranha miscelnea, de plidas novelas, grossos volumes de histria e
pssimos folhetos impressos, comeou a aparerecer em sua sala de estar.
- Gostaria de saber se estava interessada nisso tudo, antes de termos sado da Inglaterra - disse Rex, ao encontrar um desses folhetos, por acaso. - Isto  uma completa
tolice, e no gosto de ver voc perdendo tempo com essas coisas.
- De qualquer forma, est me ajudando. Fico conhecendo outras opinies e pontos de vista. Este  um livro que descreve o ingls como um feitor brutal, que, tenho
a certeza, vai lhe dar uma nova concepo da aao do Imprio.
- Eu o lerei. Como o conseguiu?
- com algum da terceira classe, acho.
- Se for to ruim como disse, eu o prenderei, quando chegarmos! Estava apenas brincando, mas Quenella o olhou, sria.
- Voc no pode fazer isso! Eu pedi que me emprestasse alguma literatura a respeito da ndia, e seria m f nossa, se usssemos isso contra quem foi to gentil conosco,
atendendo ao meu pedido.
- Voc ficaria mesmo aborrecida se esse hindu se metesse em complicaes?
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-  claro que sim! E por tudo o que tenho lido e aprendido, no ser a primeira arbitrariedade cometida por um ingls contra essa gente.
- Talvez. Mas voc no pode se esquecer de que h somente vinte mil ingleses na ndia, e trs mil soldados, para manter a ordem sobre crs milhes de pessoas.
- Isso  realmente verdade?
- So clculos aproximados.
-  fantstico! Por que eles no nos expulsam?
- Talvez o faam, um dia. Isso  o que os russos desejam a qualquer preo, e esto fazendo todo o possvel para tornar as coisas mais difceis para ns.
Pensava nos remotos postos avanados no Hindu Kush e nos soldados que sabiam, dia aps dia, que os nativos os esperavam de tocaia, os afeganes os espreitavam por
detrs dos nativos e os russos estavam por trs de todo o mundo.
Quenella mostrou interesse pelo assunto e Rex explicou o papel que os russos vinham desempenhando nos ltimos dez anos, fomentando agitao no leste e no sul, absorvendo
um aps outro os Khens da sia Central e se preparando para o cerco  ndia.
- Eles j construram uma ferrovia atravs da Sibria, em direo ao leste, e h um rumor, at agora infundado, de que constrem uma outra ferrovia no Turquisto.
Esse pode ser o primeiro passo para conquistarem o Tibete.
- O Tibete fica prximo de sua provncia, no ? Vi no mapa que a fronteira sul do pas  atrs do Himalaia. Sinto que voc est preocupado com o Tibete. Estou certa?
- Como voc sabe?
- Fala-se disso em muitos destes panfletos. Ouvi, tambm, tio Terence comentar algo.
- Sei muito pouco sobre o pas que, durante sculos, ficou sobre a proteo da China.
- Mas voc acha que os russos esto interessados?
- Podero ficar.
- Talvez por isso  que o tenham nomeado vice-governador das provncias do noroeste.
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Mais uma vez ela percebia seu pensamento, e ele sugeriu:
- Talvez possamos ler juntos alguns livros sobre o Tibete. Admito que isso me interessa, e sabe-se muito pouco sobre o pas.
- Ser que eu poderia ir at l?
- Receio que no. De fato, duvido que qualquer mulher branca j tenha ido alm das passagens, que so verdadeiras barreiras de neve.
-  onde eu gostaria de ir.
Nos dias seguintes, ela fez tantas perguntas sobre o Tibete, que Rex teve que confessar sua ignorncia: havia muito pouco que pudesse lhe contar.
Quenella aplicou-se quase com obsesso ao estudo do urdu, e Rex percebia que a luz de sua cabine ficava acesa at tarde.
Uma noite, quando atravessavam o mar Vermelho o calor e a umidade estavam to opressivos, que ele largou o trabalho mais cedo. No conseguia se concentrar e, vendo
luz no quarto ao lado, teve um sbito impulso de bater na porta.
Pela primeira vez, em muitos dias, se deu conta de que era sua esposa e de que sentia falta dela. Mesmo sabendo que no havia chance de acontecer alguma coisa entre
eles, gostaria de poder entrar, se sentar na beira da cama e conversar. Mas como Quenella reagiria, se invadisse assim sua cabine?
Lembrou-se de que havia dado sua palavra de no fazer valer seus direitos de marido nem de pedir o que ela no estivesse preparada para dar, e hesitou. Ser que,
at um pouco de companhia, era querer demais?
Dane-se tudo! A situao toda no  natural. No podemos continuar dessa maneira para o resto de nossas vidas! pensou.
Mas, no tinha certeza disso. No tinha certeza d nada. A ideia de que Quenella um dia se apaixonasse por ele, como muitas mulheres tinham feito, parecia improvvel.
Duvidava mesmo que chegasse a gostar dele.
Desde o casamento, ela evitava qualquer contato mais nfimo: sentava-se longe e, sempre que possvel, no deixava nem que ele a ajudasse tirar ou vestir o casaco.
Para ela, sou to repulsivo como qualquer outro homem, Rex refletiu. fi
Ainda podia ouvir sua voz dizendo que todos os homens eram animais,
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e se lembrava bem da violncia com que tinha pronunciado aquelas palavras.
- Um animal - repetia, sabendo que no suportaria v-la fugir dele com terror.
Apagou a luz e foi dormir, batendo a porta da cabine com fora.
No dia seguinte, sentiu-se frustrado e no conseguiu esconder isso. Se Quenella notou, no disse nada. Mas Kitty ficava cada vez mais confusa e intrigada com as
atitudes dos dois. Era bastante observadora para perceber que alguma coisa no ia bem naquele casamento.
- Por que voc se casou, Rex? - perguntou-lhe uma noite, quando estavam juntos no convs.
A noite era clara, cheia de estrelas, perfeita para um romance. E em cada canto escuro do convs havia um casal abraado, ou sussurrando aquelas coisas que s so
ditas ao ouvido da pessoa que se ama.
- Precisava de uma esposa, em minha nova posio.
- Isso  verdade. Mas, embora Quenella seja muito bonita, uma das mulheres mais bonitas que j vi, ela no me parece muito humana.
- No quero falar sobre Quenella.
- No estou sendo indelicada ou maldosa. Estou simplesmente curiosa. Ela no se parece com nenhum de seus romances anteriores, e olhe que conheci vrias de suas
amantes.
Teve medo de que Rex ficasse aborrecido, e explicou, apressada: - Sabe que quero ver voc feliz.  um homem que precisa do fogo do amor, e ficaria bastante surpresa
se conseguisse viver sem isso. Ele no respondeu e, nesse momento, sua conversa foi interrompida fcor um cavalheiro de meia-idade, que vinha perseguindo Kitty,
desde que tinham atravessado o canal de Suez. Acabou arrastando-a para lhe Oferecer uma taa de champanhe no salo e, quando desceram, Rex ficou pensando nas palavras
dela.
Era verdade: a paixo tinha sido sempre o mais importante em suas relaes com as mulheres. Enquanto muitos homens se excitavam com o perigo ou o sucesso, ele encontrava
estmulo e refgio nos prazeres fsicos, que Kitty to bem chamara de fogo do amor.
Era um amante muito ardente, mas, agora, se fosse esperar por uma solicitao de Quenella, passaria o resto da vida insatisfeito. O pior
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 que sempre detestou a ideia de se tornar um homem casado que se permitisse amores clandestinos.
Devia haver, talvez, algum ancestral puritano em sua origem, que lhe dizia que isso seria degradante. Mas como poderia levar uma vida de padre, num casamento de
mentira, de convenincia?
Preciso conversar sobre isso com ela, pensou. Difcil seria puxar o assunto. Tinha medo de assustar Quenella e destruir a relao amigvel que j estavam conseguindo
ter.
Sentia que, durante as semanas que haviam passado no mar, comeara a gostar dela. E a romper algumas de suas barreiras. Durante as aulas, por exemplo, ela falava
com ele naturalmente, como se no fosse um homem odiado. Nos ltimos dias, at riu e brincou algumas vezes.
- Preciso ser paciente - disse para si mesmo.
Mas sabia, quando passava noites sem conseguir dormir, que no ia ser fcil.
Em Bombaim, vrios oficiais subiram a bordo com mensagens do vicerei, e malas diplomticas fortemente seladas foram trazidas para a cabine, para serem trancadas
nos cofres de Rex.
De acordo com os planos, deviam pegar um trem, mas decidiu continuar a viagem de barco at Calcut. Estava ansioso para que Quenella tivesse sua primeira viso da
ndia, em uma de suas mais estranhas e atraentes cidades. Assim, em Bombaim, passariam imediatamente para outro vapor.
Foi s ao chegarem a Calcut que ela compreendeu, pela primeira vez, a importncia do seu marido. Quando desembarcaram, vrios oficiais estavam l para saud-los
e foram escoltados at o Palcio do Governo, na carruagem do vice-rei, por um esquadro da Cavalaria.
Quenella ficou fascinada pela multido colorida nas ruas, andando sem pressa no ar quente e mido, misturando os oitocentos dialetos que, segundo Rex, eram falados
na ndia.
No havia dvida de que estava excitada.
Seguiam na carruagem aberta, com um imenso guarda-sol sobre suas cabeas, sustentado por criados vestidos de vermelho e dourado, as cores do vice-rei.
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Enquanto passavam atravs das ruas lotadas, Rex apontava para os nomens dos Estados de Rajput, para os barbados Sikers do Punjab, iodos usando imensas espadas, das
quais nunca se separavam, para os bengalis espertos e falantes, e para os mongis de olhos oblquos, que provinham de Siklim, Bataan ou Assam.
Mas o que mais fascinava Quenella, acima de todas as coisas, eram os saris das mulheres. Eram de todas as cores do arco-ris, combinando com coroas de flores frescas
no cabelo, fazendo-as semelhantes s deusas.
O Palcio do Governo era to impressionante quanto Rex tinha dito a ela.
Construdo pelo conde de Mornington, irmo mais velho do famoso duque de Wellignton, era o smbolo do poder britnico. Seus portes eram guardados por imensos lees
e esfinges.
Havia canhes transportados por carretas, fogosos lanceiros hindus espalhados pelos ptios e treze ajudantes-de-campo respeitosamente esperando instrues.
Por estranha coincidncia, o palcio tinha sido originalmente construdo como uma reproduo do Kedleston Hall, de Derbyshire, que era o lar ancestral de lorde Curzon,
o atual vice-rei.
- Significa que ele vive numa posio quase semelhante  da rainha, que  o mximo a que qualquer ingls pode aspirar - disse Rex.
-  verdade?
- O vice-rei da ndia possui poucos pares na sia. S o czar da Rssia e o imperador da China so seus superiores. O x da Prsia e o rei do Sio pisam cuidadosamente
em sua presena, e o rei de Burma , atualmente, seu prisioneiro.
Quenella riu:
- O vice-rei deve pensar, certamente, que  uma pessoa muito importante.
- Lorde Curzon bem pode pensar assim. Quando o conhecer, ver que  um homem brilhante e imprevisvel, e to seguro de si, que a maioria das pessoas acha-o prepotente.
Foram recebidos por lady e lorde Curzon da mesma maneira suntuosa como Rex tinha sido recebido pela rainha, no castelo de Windsor.
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Caminhando atravs do vestbulo de mrmore, com suas pilaste brancas e enormes candelabros de cristal, olhando a guarda, em
magnfico uniforme, Quenella teve uma ideia de como seria a pompa e a cerimnia em que ela e Rex viveriam nos prximos anos.
Aps as formalidades dos cumprimentos, lorge Curzon trancou-se no escritrio com Rex, deixando Quenella a ss com lady Curzon,
uma mulher alta e majestosa, de olhos azuis e farto cabelo preto.
Tinha a mesma autoconfiana invejvel do marido, mas mostrava-se tambm muito amigvel. Seu sorriso, franco e convidativo, deixou Quenella  vontade, e se surpreendeu,
conversando com a vice-rainha muito mais facilmente do que tinha conseguido falar com qualquer outra pessoa, desde o incidente com o prncipe.
- Voc ver que precisa ter senso de humor na ndia - disse lady Curzon. - Coisas estranhas acontecem. Mas, se conseguir rir, os problemas desaparecero.
- Que espcie de coisas? A vice-rainha sorriu.
- Uma das que achei mais desconcertantes, quando cheguei aqui, foi que, se quisesse um banho, um homem esquentava a gua, outro ia buscar minha banheira, um terceiro
a enchia e um quarto a esvaziava, sendo que cada um era a nica pessoa autorizada a fazer essa tarefa, de acordo com as diferentes castas! Como se no bastasse,
as cozinhas ficavam, no mnimo,  duzentos metros da sala de jantar!
Era o fato de ser americana que fazia com que lady Curzon achasse essas coisas to divertidas; uma inglesa, pensou Quenella, teria desmaiado.
Sentiu que ia gostar daquela mulher, e depois de uma hora de conversa teve certeza disso. Apesar de sua posio, era bastante despreendida e dona de uma simpatia
contagiante.
- Preciso tentar ser como a senhora - disse, impulsivamente -, mas sinto que isso ser difcil para
mim.
- Ao contrrio. Acho que, sendo a esposa de um governador, isso acontecer naturalmente. E, tanto eu quanto voc, temos sorte por nossos maridos serem brilhantes
e espertos. Podemos realmente confiar neles, como eles podem confiar em ns, porque ns os amamos
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Falou com tanta sinceridade que Quenelk se sentiu corar.
Como poderia explicar quela mulher apaixonada que seu casamento era diferente? No, ningum, na ndia, devia suspeitar, nem por um momento, que ela e Rex no eram
um casal feliz.
Tinha a impresso de que, se isso fosse conhecido e comentado, no acarretaria somente um mexerico, mas algo que prejudicaria muito seu marido. Lady Barnstaple deixara
muito claro que quase todas as mulheres que o conheciam desejariam estar no lugar dela. Ser apontado, agora como um homem recusado pela prpria esposa, poderia fazer
dele alvo de chacotas.
S, ento, enquanto caminhavam pelos corredores vazios e frios, outro pensamento ocorreu a Quenella: supondo-se que ficassem sabendo que seu casamento era por convenincia,
Rex passaria a ser visto como um caa-dotes, um homem que casou apenas pelo dinheiro da mulher, no tendo nenhum outro interesse nela.
Tinha convivido bastante com os amigos do pai, para saber o que pensavam de um homem que se comportava assim.
Eram todos homens ricos e bem-nascidos, que desprezavam os que usavam o sexo como caminho para chegar  fortuna.
- Voc viu a esposa do Crawford? - ouvira, certa vez, um dos amigos do pai dizer. - Uma velha gorda, que parece uma prostituta americana! S Deus sabe como ele pode
aguentar seus saracoteios junto dele!
- Ele pode tolerar muito bem seu dinheiro! - respondera um outro. - Sua cotao agora est em cinco milhes! Crawford fecha os olhos, quando est com ela na cama,
e comea a contar carneiros. Isso faz com que parea mais atraente.
Houve algumas risadas, e ningum percebeu que Quenella estava ouvindo. Agora, essa conversa vinha-lhe  lembrana.
Pela primeira vez, desde seu casamento, no pensava em si mesma, mas em Rex: no permitiria que ningum falasse assim dele.
Passaram a noite no Palcio do Governo, e o vice-rei ofereceu um grande jantar em honra deles.
Os convidados estavam alinhados para receber o vice-rei e as senhoras faziam-lhe a reverncia real,  medida que se apresentavam.
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Vrias inovaes haviam sido feitas, no curto perodo em que lorde Curzon ocupava o cargo. Pela primeira vez, a casa estava iluminada por luz eltrica e tinham sido
tambm instalados elevadores. Havia ventiladores eltricos em quase todos os quartos, embora fossem mantidos os velhos abanadores de mo no vestbulo de mrmore.
Quando Quenella j estava vestida para o jantar, com um de seus mais bonitos trajes, a camareira trouxe-lhe seu porta-jias. Hesitou, olhando para as muitas peas
esplndidas que havia herdado de sua me.
No estava segura de qual seria a escolha certa para a ocasio. No havia tia Emily para consultar, e odiaria fazer algo errado em sua primeira apresentao pblica.
Havia uma porta de comunicao entre o quarto dela e o de Rex, e tambm uma sala de estar comum. Por um momento, pensou em dizer  camareira para pedir a Rex que
se encontrasse com ela na sala. Mas isso poderia parecer suspeito. Ento, venceu a timidez e bateu na porta dele.
- Entre!
Viu, pelo olhar de surpresa, que esperava que fosse um criado.
Estava quase pronto e ia vestir o casaco, quando ela entrou. A camisa de peito engomado, com colarinho alto e punhos duros, e a cala preta de cetim faziam com que
parecesse sado de um daqueles livros sobre espadachins. Havia nele alguma coisa ousada, que Quenella no tinha percebido antes.
Como no dizia nada, ela falou, um pouco embaraada:
- Eu. .. quero. . . seu. .. conselho.
- Mas,  claro. Em que posso ajudar?
- - No sei... que jia devo usar hoje  noite?
- Tenho certeza de que no  um problema difcil de resolver. Posso entrar e olhar as que voc tem para escolher?
- Sim. . . . . .  claro.
- Seguiu-a ao quarto e, quando entraram, a camareira saiu, deixando-os sozinhos. Por um momento, Quenella sentiu-se desconfortvel e, sem querer, olhou para a grande
cama. Estava com um homem, e, da ltima vez...
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- Agora, deixe-me ver o que voc tem.
A voz calma de Rex interrompeu seus pensamentos. Entregou-lhe o porta-jias, cheio de gargantilhas e tiaras.
-  uma coleo respeitvel - disse ele. Ento, virou-se para olh-la.
Seu vestido era de chiffon, com uma sobre-saia de seda, que farfalhava quando caminhava. Tinha sido desenhado especialmente para ela, em Paris, pelo costureiro Worth,
que, segundo soube, era o responsvel pela maioria dos vestidos da vice-rainha.
Era branco, de uma simplicidade elegante que Rex apreciava.
- Diamantes so os mais indicados - disse, finalmente. - Esperam que voc parea jovem e nupcial, mas ao mesmo tempo, que brilhe! Acho que  o melhor, embora, 
claro, nem todo mundo v gostar.
- Mesmo?
- Voc despertar tambm inveja, aborrecimento e malcia em muitas mulheres. - Riu e explicou: - Se voc se vestir mal, iro dizer que  prosaica ou pensar que 
um insulto. Se parecer uma rainha de contos de fada, vo simplesmente ranger os dentes e querer mat-la.
Quenella sorriu.
- Voc faz isso parecer um jogo!
- E  um jogo. Todos estaro atentos a cada movimento que fizer. Hoje voc  a nmero dois na escala social e ter que seguir as regras. Quando chegarmos a Lucknow,
ser a nmero um.
- Voc est me deixando nervosa.
- Bobagem! Use este diamante e esta gargantilha, e deixe que guardem as crticas para si mesmos. No importa o que as pessoas pensam, o desconcertante  o que elas
dizem na cara da gente.
- Voc acha mesmo?
- Nunca dou aos meus inimigos a satisfao de pensar neles. Tirou do porta-jias a tiara de diamantes que pertencera  me dela.
- Posso ajud-la a colocar?
- Minha camareira far isso - respondeu, rapidamente.
- Claro. Espero voc na sala de estar.
Abriu a porta de ligao e Quenella ficou por um momento com a tiara nas mos, olhando-o sair.
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- Devia ter deixado que me ajudasse - disse para si mesma. Ento, esperou pelo terror que esse tipo de pensamento normalmente provocava.
Para sua surpresa, isso no aconteceu!
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CAPTULO V

-  muito excitante - disse Quenella.
- O trem? - perguntou Rex, que estava sentadom frente dela.
- No, poder ver o interior do pas. Era por isso que eu estava esperando.
Viajavam do noroeste para Lucknow, e o vice-rei, com uma generosidade incomum, cedera-lhes duas cabines em seu trem especial, construdo para a visita do prncipe
de Gales, em 1875.
Tinha doze vages em creme e dourado, puxados por duas mquinas a vapor e, quando usado pelo vice-rei, viajavam tambm secretrios civis e militares, dois mdicos
e algumas centenas de altos funcionrios. Toda a extenso da linha estava guardada por soldados sediados nas vizinhanas.
Era um grande tributo  importncia de Rex Daviot, e  sua nova posio, que duas dessas esplndidas cabines tivessem sido atreladas a
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um trem comum, que transportava uma grande quantidade de pssageiros.
Rex estava acostumado  confuso das estaes indianas, mas, para Quenella, a multido em Howrah era uma experincia fascinante e nova.
Havia famlias acampadas nas plataformas, dormindo, cozinhando e comendo, antes que se tornassem parte da massa que iria se alojar nos carros de terceira classe.
O barulho era ensurdecedor: vendedores de gua, meninos vendendo jornais, carregadores de arroz, mulheres que serviam ch e doces. Todo mundo se empurrando e gritando,
alm das crianas e dos carregadores que berravam e das locomotivas apitando.
Na verdade, era um pandemnio completo.
- Mesmo assim - observou Rex -, os trens nunca atrasam.
Todas as horas do dia eram iguais para os orientais, e o trfego de passageiros nunca diminua.
Cada vez que paravam numa estao, um grande nmero de oficiais aparecia para as boas-vndas, assim como muitos criados do vice-rei, em seus uniformes vermelho e
dourado.
 medida que caminhavam em direo s suas cabines fortemente guardadas, ouviam longas e furiosas discusses entre os viajantes hindus e os bilheteiros eurasianos.
Rex explicou a Quenella que os nativos pensavam que aqueles bilhetes eram pedaos de papel mgico e ficavam furiosos com o fato de estranhos poderem arranjar alguns
pedaos desses amuletos.
Quenella divertiu-se, quando o guarda se aproximou, para saber se tinha a permisso de Rex para partir. Enquanto ele respondia, solene, viu que os olhos dela piscavam
divertidos.
- Isso sempre acontece?
- Sempre que o trem transporta algum ingls importante.
Ambos riram. ,
- No consigo imaginar isso acontecendo na Inglaterra ou em qualquer outra parte do mundo ocidental.
- Na ndia, o ingls  o conquistador, e  tratado com o devido respeito.
Mas ela sabia que ele estava brincando.
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Assim que deixaram Calcut, a paisagem era plana, e, na maioria das vezes, alagada, mas Quenella pde ver os novilhos brancos puxando os arados nos campos os bfalos
mergulhadores nos tanques e, vez ou outra, a silhueta de um camelo, contra o cu lmpido.
.- Isso  exatamente como eu imaginava a ndia - disse aps um momento, como se falasse para si mesma.
- Por qu?
Hesitou, escolhendo as palavras:
-  como. . . se. .. eu estivesse chegando em casa. Ele a olhou, com surpresa:
- Por que diz isso?
- Porque . . . o que me. . . parece. Sempre quis vir para o Oriente. E sempre soube que era a ndia o que eu queria.
Pensou que ele no acreditasse e tentou explicar.
- Quando comecei a ler os livros que voc me deu, era como se j os tivesse lido antes. Tudo o que diziam. . . era como. . . se j estivesse dentro de mim.
Fez um gesto com as mos:
- Talvez voc no entenda, e  muito difcil explicar.
- Mas eu entendo.  o que sinto tambm; o que sempre senti. Olhou fixamente para ele, como se quisesse ler em seus olhos se era
verdade. Depois, virou o rosto para a janela e mudou de assunto.
- Deram-nos cabines usadas pelo vice-rei pessoalmente?
- No, os aposentos dele ocupam um carro inteiro, com quarto, um salo e banheiro. E a vice-rainha possui outro para ela. As nossas cabines so as usadas pelos convidados
mais importantes que viajam com ele.
Os compartimentos eram, obviamente, menores. Dividiam um carro, eram confortavelmente mobiliado e,  noite, Quenella soube, pela camareira, que podia conseguir gua
para seu banho em pontos predeterminados da estrada, onde seria esquentada em grandes tinas.
Isso seria deixado para depois, pois ainda estava quente. Quenella despiu-se e deitou-se em sua cama confortvel, pensando, no em si, mas na ndia.
 medida que se aproximavam de Lucknow, sentia uma estranha
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excitao. Como poderia imaginar, h um ms atrs, que estaria casada, ocupando uma posio muito importante em um pas que provocava nela sensaes que nunca havia
sentido antes?
A fronteira estendia-se da baa de Bengala aos Pamirs, continuando em direo a Karachi. A costa totalizava cerca de cinco mil quilmetros. Um dcimo de todo o comrcio
ingls passava pelos portos indianos.
Isso era fascinante, e tudo parecia uma daquelas colchas de retalhos que vira sendo feitas por velhas mulheres, nas cidadezinhas da Inglaterra ou dos Estados Unidos,
em pequenos pedaos de centenas de diferentes materiais, em cores brilhantes, que formavam um conjunto intrigante.
Aps o banho, que devia ter dado um imenso trabalho aos empregados, vestiu um longo e farto neglig, roupa muito em moda entre as senhoras finas de Londres.
Esses vestidos tinham sido criados para serem usados nas horas de descanso, entre o ch e o jantar, quando deveriam ser trocados por algo mais sofisticado.
Eram usados, tambm, por aquelas damas que recepcionavam o prncipe de Gales; embora, no caso delas, o objetivo no fosse exatamente o conforto. A dama honrada com
tal visita escolhia geralmente um tecido quase transparente e deitava-se numa poltrona coberta de almofadas, com as cortinas fechadas e o quarto todo perfumado.
Comentava-se muito a respeito dessas chamadas "festas-de-ch", nas quais o herdeiro ao trono era o nico
convidado, as anfitris, bonitas e sedutoras, a ponto de conseguir prender seus olhos sempre errantes.
Mas, apesar da maneira pela qual as mais conservadoras lhe torciam o nariz, o neglig era muito-conveniente. Que mulher poderia resistir  tentao de se livrar
dos espartilhos e respirar livremente, ao menos por duas horas?
O que Quenella usava era muito atraente, em chiffon lils claro, que ondulava suavemente a seus ps. Para combinar, colocou uma gargantilha de ametistas com diamantes.
Quando entrou na sala de estar, Rex pensou que nunca a tinha visto to bonita. E que havia tambm em seu olhar uma expresso diferente: uma parte de sua reserva
e frieza tinha desaparecido.
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- H muita coisa que gostaria de conversar com voc - disse ela. Sentou-se junto  mesa onde jantariam, abriu um livro e comeou
um longo questionrio a respeito de Vishnu, o salvador do Universo.
Rex comeou com uma citao do prprio Vishnu:
"Eu sou a essncia do corao mais profundo de todos os que nasceram. Eu sou o comeo, o meio e o fim de toda criao. . ."
- Estou tentando entender isso - murmurou Quenella.
- A mais importante reencarnao de Vishnu  Krishna, a expresso indiana do amor humano e pessoal. As mulheres o imaginam como o homem e o amante ideais, e ele
inspirou muito da arte indiana.
Imaginava que, ao tocar nesse assunto, Quenella mudaria rapidamente de conversa, pois no gostava de falar de amor. Mas, ao contrrio, ela disse, pensativa:
- Krishna  um deus alegre, representado, geralmente, tocando uma flauta no ?
- Exatamente.
- Seu livro diz como ele  avidamente cultuado.
- Acho que todo mundo, no importa de que maneira, procura
o amor.
- Krishna certamente significa o amor perfeito. Algum pode encontr-lo?
- Acredito que  isso o que todos procuram, o ideal que guardam no corao.
-  isso. . . o que voc quer?
Sabia que era um grande esforo para ela fazer essa pergunta, e tentou responder num tom impessoal:
- Claro. No sou diferente de ningum. Sempre desejei aquele amor que  claramente expresso nos textos snscritos e esperei que Krishna me trouxesse a mulher dos
meus sonhos.
Percebeu que Quenella ficou perturbada. Aps alguns momentos de silncio, ela disse:
- Eu sonhei com isso. . . tambm.
- Voc no seria humana, se no sonhasse que um dia um prncipe encantado apareceria e viveriam felizes para sempre.
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- Isso  s. . . uma histria.
- Mas acontece.
- E agora ns sabemos que. . . no acontecer.. . conosco. Antes que ele pudesse responder, completou:
- Pode ser que acontea com voc. Afinal, lady Barnstaple disse, . .
- Estamos falando de um tipo de amor muito diferente daquele sobre o qual lady Barnstaple tagarelou.
- Voc tem certeza que  diferente?
- Certeza absoluta! Os namoros e as paixes que os mexeriqueiros costumam comentar, no podem ser comparados com um sentimento verdadeiro. Esse  como o Himalaia:
voc no precisa ver para saber que seus incomparveis picos esto l, as neves inexploradas, desafiando o homem.
- Entendo o que voc est dizendo - murmurou Quenella -, s que ningum ainda alcanou o topo da montanha mais alta do Himalaia.
- Eu o usei apenas como exemplo. Quanto mais voc ler e quanto mais estudar os seres humanos, descobrir que muitos atingem o inatingvel.
Viu pela expresso de seu rosto que isso era o que ela queria fazer. Enquanto a olhava, pensou que todas as mulheres que conhecera tinhamse contentado com os contrafortes,
sem tentar subir mais para o alto.
Assim que o jantar terminou, Quenella levantou-se, dizendo:
- Hoje foi um dia cheio de acontecimentos, e ontem fui dormir muito tarde.
- Ainda tenho algumas coisas para fazer. Boa noite. Se  que vai conseguir dormir bem.
- Geralmente consigo. O movimento do trem e o barulho das rodas me embalam.
- Ento, at amanh. Espero que voc goste dos lugares por onde vamos passar.
- Tenho certeza de que vou gostar - ela respondeu. Caminhou com perfeito equilbrio e entrou no quarto.
Rex olhou-a sair. Abriu a mala da correspondncia, colocada a seu lado, e achou difcil ordenar os papis que requeriam mais a sua ateno.
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Ela estava certamente diferente, pensou. Diferente daquela mulher ,ausente e fria com quem havia se casado, e que ficava tensa, medrosa ou rancorosa toda vez que
ele se aproximava.
Naquela noite, Quenella havia conversado com ele de uma maneira lenos tensa, e teve a impresso, embora no estivesse certo, de que, uando falaram de amor, seus
pensamentos no tinham se dirigido para o prncipe.
Talvez estivesse se esquecendo, talvez o horror que aquele bruto tinha despertado nela estivesse diminuindo.
Se alguma coisa tinha conseguido esse milagre, era a ndia.
Estranho, que Quenella pudesse se sentir to excitada. Se fosse qualquer outra mulher, suspeitaria de que estava fazendo de propsito, para atrair sua ateno ou
para agrad-lo.
Quenella, no entanto, falava da ndia de uma maneira que lhe dava a certeza de que era a verdadeira. Ao contrrio de Kitty e de todas as outras, no tinha feito
nunca o menor esforo para atra-lo ou despertar seu interesse.
- Seja o que for que sinta por mim,  estranha e interessante. No tanto como mulher, mas como pessoa.
Em seu compartimento, Quenella chamou a camareira para ajud-la a vestir fina camisola de musseline, enfeitada com rendas.
Mesmo sendo bem leve, no conseguia aplacar o forte calor, que fazia a cabine parecer sufocante, apesar do ventilador.
Teve pena dos passageiros de terceira classe, apertados como sardinha; deviam ter dificuldade para respirar, quanto mais para dormir.
Lembrou-se do que o pai uma vez disse:
- As pessoas nunca reconhecem os pequenos confortos da vida. Enquanto se deitava, recostada em macias almofadas, pensou que
isso era, na verdade, quase que um grande conforto.
Ligou o abajur e pegou os livros.
Havia muito mais ainda a perguntar a Rex, mas no queria incomodlo, ainda que ele tivesse sido excepcionalmente gentil, ensinando-lhe o urdu, durante todo o tempo
em que navegavam para a ndia.
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Agora, essas lies iam provavelmente terminar, e duvidava de qUc pudesse encontrar outro professor to bom quanto ele, capaz de tornar to interessantes as coisas
que discutiam. Alm disso, Rex inseria algo pessoal em cada lio, de modo que nunca eram cansativas.
Aos poucos, tinha perdido o medo dele, como homem.
Papai acharia que tive muita sorte em me casar com ele, pensou.
Por um momento, o terror que o prncipe representava tomou conta dela; poda ver seu rosto maldoso, olhando-a, no meio das sombras da cabine.
Ento, foi como se Krshna, o deus do amor, estivesse a seu lado apagando a viso terrvel, com sua figura magra, e a estranha graa
e suas mos que tocavam a flauta, com um sorriso nos lbios.
Inconscientemente, pediu:
- D-me amor, Krishna. Divino Krishna, d-me amor!
Quenella despertou quando o trem parou numa estao barulhenta como todas as outras.
A camareira havia fechado as persianas escuras, de modo que no pde ver nada l fora, mas percebeu que os soldados que guardavam o trem postaram-se na frente do
carro em que viajavam.
Os gritos pareceram aumentar e ouviu que alguns homens berravam mais alto que o resto. Gostaria de olhar para fora, mas sabendo que seria indiscreto abrir as persianas,
levantou-se, para ir at o outro lado do vago.
Era impossvel, durante a viagem, conservar a janela aberta, seno a poeira tomava conta de tudo. Mas valia a pena, mesmo que fosse por um momento, respirar um ar
que no fosse o do ventilador.
Subiu as persianas, abrindo primeiro o mosquiteiro e, depois, o vidro. Agora, tudo tinha ficado repentinamente quieto e pde ver uma outra plataforma, onde no havia
agitao; somente pilhas de bagagens e vrios corpos escuros, enrolados como tapetes, mas que ela sabia serem homens dormindo.
Levantou os olhos para as estrelas brilhantes. O ar estava pesado e, ainda que respirasse profundamente, sentia-se um pouco sufocada pelo calor.
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Ento, subitamente, ouviu um murmrio sob a janela, e uma voz que dizia em ingls:
- Abra a porta! Pelo amor de Deus, abra a porta!
Olhou com ateno para baixo, mas era impossvel distinguir algo na escurido. Pensou que tinha se enganado, mas ouviu de novo:
- Abra a porta, eu lhe peo! Rpido! No h tempo!
Porque o pedido foi feito em ingls, Quenella no parou para pensar: levantou a maaneta da porta de segurana que guarnecia todos os vages indianos e, imediatamente,
algum pulou para junto dela, dentro do compartimento.
O abajur ao lado da cama era a nica luz acesa, mas, como estava coberto por um pano verde, ficava difcil ver quem tinha entrado. Sabia apenas que era um homem
e, s quando ele se curvou para a frente, fechando as venezianas, pde olhar para ele.
Tinha a pele escura e um corte no rosto, que sangrava. Suas roupas, terrivelmente sujas, estavam rasgadas e tambm ensanguentadas.
Quenella tentou gritar, mas estava to chocada e apavorada naquele momento, que no conseguiu.
Ento, ele cambaleou, dobrou-se de uma maneira estranha e caiu a seus ps.
Agora, precisava gritar, mas, antes que o fizesse, ouviu-o sussurrar:
- Daviot. . . consegui. . . Daviot!
O fato de estar ainda falando em ingls, apesar de sua aparncia, impediu Quenella de chamar a guarda, que estava na plataforma, fora do vago.
Olhou para o desconhecido cado no cho e viu que seu sangue manchava o tapete.
com os olhos fechados, ele moveu os lbios e disse mais uma vez:
- Daviot!
Tremendo tanto, que mal conseguiu abrir a porta, ela saiu para a sala de estar, mas Rex no estava mais l. Tateou no escuro at o quarto dele e fez o que nunca
faria, se no estivesse to amedrontada: entrou sem bater.
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Um abajur iluminava a cama: ele estava deitado, nu da cintura par cima, com vrios papis espalhados na cama. Dormira enquanto tta balhava.
No teve tempo de pensar em nada, nem que era a primeira vez qUe via o corpo do marido.
- Rex!
Sua voz, que estava estrangulada na garganta, saiu baixinha e ele no a ouviu. Sem pensar no que estava fazendo, sacudiu-o pelos ombros.
- Rex!
Tinha o sono profundo de um homem exausto, mas acordou imediatamente, naquele estado de alerta comum aos que vivem constantemente em perigo.
Por um momento, olhou para ela, sem acreditar no que via:
- Quenella!
- H. . . h.. . um homem. .. em meu. . . quarto!
- Um homem?
Sentou-se na cama e Quenella percebeu que ia chamar um dos soldados que estavam de guarda.
- No! Ele perguntou por voc, pelo nome! Est ferido. .. sangrando!
Sem uma palavra, Rex pulou da cama, atravessou rapidamente a sala de estar, e entrou na cabine dela.
O homem continuava deitado onde o deixara, e Quenella pensou que podia estar morto, porque, seu rosto moreno estava muito plido, e os lbios brancos.
Rex ajoelhou-se a seu lado:
- Quem  voc?
- E.17, senhor. Eles quase me pegaram! As palavras saam com dificuldade.
Passando um brao sob a cabea dele, Rex olhou para Quenella.
- H um estojo de primeiros socorros na minha mesinha-de-cabeceira. Correu a busc-lo. Quando voltou, Rex havia colocado uma almofada
sob a cabea do homem e arrancara as roupas sujas que vestia, at a cintura.
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Viu, ento, que ele tinha um ferimento de faca, e que o sangue do corte no rosto tambm escorria pelo peito.
- gua! - pediu Rex. - Mas, primeiro, abra a caixa para mim!
pez o que ele pediu, e foi buscar um pouco de gua e uma esponja, uma pequena bacia, no banheiro.
- Toalhas! Todas que voc conseguir! H vrias na minha cabine. Quando voltou com as toalhas, Rex dava algo para o ferido engolir. O homem comeou a murmurar.
- Desculpe, sir! Eles me perseguiram ontem. . . eu escapei. . . e viajei at aqui. . . num carro de bois. . . mas havia trs deles... na estao.
Era muito difcil para ele falar, mas,  medida que o remdio que Rex lhe deu comeava a fazer efeito, sua voz ficava mais firme:
- H uma informao. . . que tenho que passar.. . a B.29 em. . . Oelhi.
- Ele a receber. Onde est escondida?
- Em meu.. . cabelo.
Rex tirou-lhe o turbante sujo e os cabelos longos e negros, to escuros que pareciam tingidos, caiu sobre os ombros e o rosto ensanguentados.
Quenella viu Rex tirar um pequeno pedao de papel e coloc-lo na cintura. Ento, ele disse:
- Voc tem que sair do trem. Eles vo suspeitar de que est aqui.
- No me importo, sir... agora que o senhor. . . tem... a informao.
-  claro que se importa. No podemos perder ningum neste "Grande Jogo".
- No, sir. . . mas. .. o senhor. . . no pode estar envolvido. . . comigo.
- No pretendo estar!
Quenella olhou, horrorizada, para Rex.
Ser que ele ia deixar partir esse homem ferido e exausto, sabendo que seus inimigos estavam ali fora, prontos para captur-lo? Ento, viu o marido sorrir.
- Precisa melhorar um pouco sua aparncia. Voc conseguiria se sentar?

O homem deu um sorriso fraco.
- Estou. . . bem melhor. . . quanto. . . pio. . . o senhor. . . me deui
- O bastante para melhorar seu sofrimento. Quando comeu pela ltima vez?
- H dois... ou melhor... h trs dias atrs...  difcil lembrar Rex olhou para Quenella.
- No podemos pedir nada, mas deve haver alguma coisa ainda na mesa.
Ela correu  sala de jantar, acendeu uma das pequenas lmpadas e procurou. A pequena mesa, onde serviram o jantar, agora estava vazia, coberta por uma toalha branca.
Mas, com o balano do trem, uma das grossas fatias de po tinha cado no cho.
Apanhou-a. Podia no ser muito higinico, pensou, mas era melhor do que deixar o desconhecido morrer de fome.
Viu que Rex tinha enfaixado cuidadosamente o homem, de uma maneira que demonstrava ser um perito.
- Voc precisa consultar um mdico. Esse ferimento tem que ser suturado o mais rpido possvel - disse ele.
- H um mdico. .. que poder me... ajudar... se eu conseguir chegar. . .  prxima cidade.
- Voc conseguir.
- Isto foi tudo que achei - disse Quenella, mostrando o pedao de po.
O homem pegou e devorou-o, como um cachorro que h muito tempo no comia.
- Lembrei-me de que h chocolate em meu armrio - disse Rex. E poderia, tambm, trazer minha navalha?
Ela o olhou, com surpresa, mas, novamente, obedeceu sem perguntas.
Encontrou a navalha em uma elegante pasta de couro, e o chocolate, em um pacote, daqueles que so distribudos aos soldados, quando em manobras.
Trouxe as coisas para o compartimento e, ao entrar, viu, atnita, que Rex estava cortando o cabelo do homem, com uma tesoura que encontrara na caixa de primeiros
socorros.
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Os chumaos caam no cho,  volta dele.
- Voc vai se transformar num monge budista. Ningum ir tocar em um homem santo, e h uma coberta na minha cama que tem quase a mesma cor que eles usam.
Quenella nem esperou pela ordem e dirigiu-se ao quarto de Rex. Achou a colcha, de um amarelo-dourado, e trouxe-a para sua cabine.
O homem estava agora devorando o chocolate, to rapidamente como inha feito com o po. Enquanto comia, Rex raspava sua cabea.
- Voc est usando uma boa tintura.
-  a nica recomendada - explicou E.17 -, mas eu a engrossei mais do que. . . o.. . normal. Vai dar um trabalho dos diabos. . . remov-la.
- Quando voc volta? - perguntou Rex.
- Nas prximas duas semanas. O C.O. sabe de tudo. No sei quem me vigia, mas sempre sabe tudo.
- Realmente!
Acabou de raspar a cabea do homem. Rex tinha aplicado um unguento em seu rosto para o sangramento, e o pio havia dilatado seus olhos, dando-lhe uma expresso inteiramente
diferente.
- Veja se consegue ficar em p.
Sem que fosse preciso lhe dizer, sabendo que se esperava isso dela, Quenella retirou-se para a sala de estar.
Poucos minutos depois, Rex apareceu.
- Temos quatro minutos, antes do trem sair daqui. Seria um erro nos apressarmos demais.
Ela queria fazer uma dzia de perguntas, mas sabia que Rex estava muito ocupado. Ele foi at a prpria cabine e voltou com dinheiro. Curiosa, ela o seguiu.
O homem que ela havia salvado estava em p, e certamente seria muito difcil reconhec-lo, enrolado na colcha amarela e com a cabea raspada. Tinha o ar pacfico
dos piedosos seguidores de Buda.
Rex deu-lhe o dinheiro e vrios tabletes, que Quenella sabia serem de pio.
- Use-os espaadamente. Faro com que consiga andar, at se achar a salvo.
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Rex olhou por todo o compartimento e viu uma pequena vasilha prata, com muitos objetos, em cima da penteadeira.
- Sua vasilha de esmola! O homem sorriu.
- Sabia que, se o encontrasse, estaria salvo!
- Nunca presume que a tarefa tenha acabado, at chegar em casa
- respondeu Rex. -  um provrbio hindu.
E.17 olhou para Quenella.
- Obrigado, madame. Espero no t-la assustado, mas quando abriu a janela, vi que era a minha nica chance!
- Estou feliz em ter ajudado!
- Voc tem que partir - disse Rex.
Abriu a cortina, afastando a porta por onde o homem entrara no compartimento.
Ento, inclinou-se para fora, como se estivesse tomando ar. Como no havia ningum  vista, abriu a porta.
- Deus a abenoe - disse E.17, ao passar por Quenella. Deixou-se escorregar at os trilhos, com medo de abrir novamente o
ferimento, e atravessou a escurido, at alcanar a plataforma.
Por um momento, pareceu hesitar; ento, Rex e Quenella viram quando se juntou aos outros que dormiam.
- Ele agiu com inteligncia - murmurou Rex.
- Mas por que no foi embora de uma vez? Rex fechou as janelas e puxou as persianas.
- Porque aqueles que esto procurando por ele vigiam as sadas e, durante as prximas horas, vo revistar todo mundo que deixe a estao.
- Naturalmente! Compreendo! Olhou para Rex:
- O que voc vai fazer com a mensagem que ele lhe deu? Como entreg-la ao homem, em Delhi?
- Que mensagem? Que homem?
Percebeu que ele lhe dizia, sem palavras, que devia esquecer tudo o que acontecera.
Rex comeou a apanhar os chumaos de cabelo preto do cho, as roupas sujas que E.17 tinha usado, algumas peas de l e algodo ensanguentadas, e enrolou tudo junto.
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Ento, olhou com pesar para as manchas de sangue no tapete claro. - Eu limparei isso - disse Quenella.
- Como?
- com gua fria.
- Sim,  claro, mas eu farei isso para voc.
Apanhou uma das toalhas e esfregou vigorosamente. As manchas de sangue desapareceram, mas as toalhas ficaram estragadas.
- No se preocupe. Quando estivermos mais ao norte, nos livraremos das toalhas, como das outras coisas.
Olhou em volta para ver se havia qualquer outra evidncia de seu visitante.
- Desejaria ter dado a ele algo mais substancioso para comer - disse Quenella.
- Ele se arranjar, agora que tem dinheiro. O pio tira a fome e, alm disso, sempre poder esmolar, sendo um santo homem.
- Voc foi muito inteligente em disfar-lo. Duvido de que a prpria me seja capaz de reconhec-lo. Ele  ingls?
- De quem voc est falando? Quenella deu um sorriso.
- Voc est sendo mal-educado. Eu o deixei entrar e tambm no gritei.
Comportou-se admiravelmente - disse Rex, num tom diferente. Era exatamente isso que esperava de voc!
- Est dizendo isso s para me agradar, ou porque realmente procedi bem?
Parecia uma criana, pedindo sua aprovao.
- Vo
 agiu muito bem e, por ser minha esposa, pode ser que acontea de novo. Amanh, quando tivermos tempo, conversaremos sobre algumas coisas, sobre as quais est morrendo
de curiosidade.
- Confesso que estou - disse Quenella, com um sorriso.
Os olhos deles se encontraram e, pela primeira vez, ela percebeu que no vestia nada mais do que uma camisola transparente e de que ele estava sem camisa.
Tinha ficado to atenta ao que estava acontecendo, e desejado to desesperadamente salvar o homem ferido, que no pensou em mais nada.
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Agora, enquanto enrubescida, ouviu Rex dizer, rapidamente:
- Obrigado, Quenella. Voc foi magnfica! V dormir e lembre-se somente de que salvou a vida de um homem que estava disposto a perdla pela ndia!
Saiu do compartimento, fechando a porta.
Quenella sentou-se na cama.
Isso tudo acontecera realmente? O que parecia uma aventura fantstica, sada de alguma novela sensacional, tinha realmente acontecido com ela?
Esperava muita coisa de seu casamento e da ndia, mas no isso, e disse para si mesma que as coisas que sempre sentira, mais do que ouvira, sobre o tio, deveriam
t-la preparado para enfrentar aquele tipo de emergncia.
No era surpresa que ele sempre falasse de Rex Daviot com admirao.
Vagamente, lembrou-se de ter ouvido que os ingleses tinham um sistema de contra-espionagem maravilhoso, que os capacitavam a enfrentar
os russos. ,
Estava claro para ela, agora, que, tanto o marido quanto o homem que ele havia salvo, estavam profundamente envolvidos naquilo que era chamado de "O Grande Jogo".
Em virtude do que tinha acontecido ter sido to excitante e, ao mesmo tempo, Rex ter-se comportado com tanta prtica e calma, ela no tinha medo do que pudesse acontecer
novamente, no futuro. Ao contrrio, sentia-se emocionada e interessada em tomar parte na aventura.
Percebeu, quando E. 17 caiu a seus ps, fazendo-a pensar que estava morto, que tinha sido tomada por um medo muito diferente daquele que sentiu ao ser atacada pelo
prncipe Ferdinand.
Era mais racional, mais intenso.
- Rex vai me contar amanh muito do que quero saber! - disse a si mesma.
Deitou-se, pensou que nada podia ser mais maravilhoso do que saber que novos horizontes, nunca imaginados por ela, estavam se abrindo  sua frente.
No era somente a ndia, com suas religies diferentes, seu povo, sua beleza que arrebatavam seu corao; mas uma outra coisa mais profunda.
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Era um homem lutando, com a inteligncia, contra outro, e Rex bem no meio disso tudo.
- Eu o ajudei hoje  noite, e tentarei ajud-lo novamente.
Em seu compartimento, Rex cortou as roupas sujas de E.17 em pequenos pedaos.
Seria um grande erro deixar a trouxa no meio da linha, pois poderia ser descoberta. Nunca deixar pistas era a principal preocupao daqueles que se ocupavam do "Grande
Jogo".
Foi fcil dar fim aos chumaos de cabelo. Separou-os em pequenos montinhos e, uma hora aps a partida do trem, abriu a janela e deixou-os flutuar suavemente.
com as toalhas tambm foi fcil. Rasgou-as, esfregou o cho com elas, molhou-as na gua e jogou-as fora, como faria qualquer criado preguioso, ao perceber que estavam
sujas demais para serem lavadas.
Somente depois de ter feito desaparecer essas coisas, deixando as outras para mais tarde,  que Rex retirou a mensagem da cintura.
Leu-a, cuidadosamente, queimou-a num cinzeiro e, ento, sentou-se na cama e escreveu um telegrama para um certo comerciante em Delhi:
"Parcela levemente danificada na viagem, mas recebida a salvo. Mande mais suprimentos, como o previamente combinado".
No assinou. Na manh seguinte, seu criado a levaria at o correio, na prxima estao, e a despacharia imediatamente.
Deitou-se e fechou os olhos.
No estava, no entanto, pensando em E.17, que dormia pacificamente na plataforma. Nem naqueles que o perseguiam, procurando febrilmente em toda a estao, por um
homem de rosto ferido e com uma facada no peito.
Ao contrrio, pensava em Quenella.
Tinha-se sado espantosamente bem em seu primeiro encontro com o perigo.
Qualquer mulher, e certamente algum como Kitty Barnstaple, teria sem dvida gritado ou desmaiado, se um homem, ainda mais parecendo um nativo, entrasse em seu quarto.
O comportamento de Quenella era exatamente o que esperava de uma sobrinha de sir Terence.
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Mas, ao mesmo tempo, no tinha morado muito tempo com o tio e, certamente, nunca em sua vida segura e luxuosa tinha encontrado algo mais perigoso do que um prncipe
enlouquecido por sua beleza.
- Eu devia saber que ela era diferente - Rex disse para si mesmo.
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CAPITULO VI

Ao chegarem a Lucknow, Rex percebeu que estava apaixonado, como nunca em toda sua vida.
Soube disso quando entrou na cabine de Quenella e percebeu, de repente, que ela usava apenas uma camisola transparente e ele estava seminu.
Estava to preocupado em disfarar E.17, e tir-lo do trem, que no pensou na esposa, seno como uma ajudante para esses trabalhos.
Ento, quando ficaram sozinhos, e ele viu que ela sentia vergonha dele, olhou-a como mulher.
Veio-lhe um incontrolvel impulso de toma-la nos braos e beij-la apaixonadamente.
Sentia o sangue latejando nas tmporas e um crescente desejo feriu seu corao como uma navalha.
Queria-a tanto, naquele momento, que viu que tinha acertado ao compar-la a uma extica boca-de-leo.
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Por baixo da pureza, que parecia uma flor, havia o fogo que excitava um homem a ponto de deix-lo enlouquecido.
No desculpava, mas podia entender o desespero do
prncipe.
Rex tinha aprendido a se controlar e a esconder seus sentimentos. Forou-se a uma nota de indiferena na voz, quando disse boa noite, o que, sabia, iria tranquilizar
Quenella.
Passou a noite toda acordado, desejando-a de uma maneira ardente, no s para satisfazer seu corpo, mas tambm seu esprito. Estava irremediavelmente apaixonado.
Aconteceu-lhe assim, de repente,- porque, em seu desejo de salvar a vida do homem ferido, a frieza de Quenella e as barreiras da indiferena e averso com que se
protegia haviam desaparecido.
Ao contrrio, ela estava ansiosa, simptica, apiedada e, claro, excitada pelo drama que lhe acontecera de maneira to inesperada.
Era tudo isso o que queria de uma mulher que escolhesse para esposa: que fosse corajosa, talentosa e, ao mesmo tempo, bastante feminina.
No dia seguinte, quando se encontraram, pela manh, na sala de estar, Rex controlou-se para proceder exatamente da mesma maneira da noite anterior.
No podia deixar de pensar, um pouco divertido, que, de todos os papis que tinha desempenhado, este era o mais difcil.
Ficara pensando, durante a noite, e chegara  concluso de que, para que Quenelle viesse a am-lo, e Deus sabia como queria seu amor, ele teria que cortej-la, como
nunca cortejara mulher alguma.
Sabia que havia ainda muitas barreiras entre os dois, que precisava destruir.
O primeiro passo seria faz-la acreditar nele e deix-la intrigada sobre seu comportamento, to diferente de todos os outros homens.
O caminho seria longo. Uma palavra precipitada, um gesto descontrolado, poderiam trazer de volta o medo a seus olhos, e mais uma vez ela fugiria para dentro de si
mesma.
Ao v-la entrar no compartimento, vestindo um traje de musseline branco e fino, no entendera como tinha sido capaz de achar que ela no o atraa.
Agora sabia que Quenella tambm se disfarava, como ele frequentemente
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fazia, deixando que centenas de nativos o tomassem por um faquir, a quem instintivamente reverenciavam.
Nessas ocasies, fechava as portas ao seu eu real, como Quenella havia feito.
Ia lutar para consegui-la, nem que isso levasse a vida inteira.
Nunca, antes, Rex Daviot precisou correr atrs de uma mulher. Eram sempre elas que o perseguiam, tomando-o nos braos, antes mesmo que estivesse pronto a retribuir.
O simples fato de que conquistar Quenella fosse to difcil, como qualquer papel que desempenhara no "Grande Jogo", era
uma atrao fascinante.
Ao mesmo tempo, sabia que, embora ela no percebesse isso, havia algo espiritual entre eles, e era seu dever convenc-la de que eles se pertenciam.
Quando Quenella se sentou em seu lugar habitual, junto  janela, Rex viu que havia um brilho em seus olhos e um sorriso em seus lbios.
Estavam a ss e, depois de olhar por sobre os ombros, ela disse, em voz baixa:
- Rezei por ele, mas ficaremos sabendo o fim da histria? Rex balanou a cabea.
- Tenho certeza de que escapou. No  prudente fazer perguntas. Quenella deu um suspiro.
- Foi tudo to incrvel. A partir de agora, ficarei temerosa por sua causa.
- Por minha causa?
- Poderia ter sido tola e no abrir a porta para ele. Rex entendeu o que ela estava tentando dizer.
- Deixe-me tranquiliz-la. No momento, terei tarefas bem diferentes como vice-governador. Acho que, depois do que aconteceu esta noite, voc ir achar isso tedioso
e aborrecido.
- No acredito que nada na ndia possa ser assim, mas gostaria de ajudar e mesmo de tomar parte no "Grande Jogo".
Rex sorriu para ela:
- Ser impossvel para uma mulher em sua posio. Ainda que algumas vezes voc possa ajudar, como ontem  noite.
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- Fale-me sobre o "Grande Jogo". Sei, agora que vi, como  perigoso. Que esse  um nome tipicamente britnico para camuflar
uma srie de coisas.
-  verdade.
Em voz baixa, contou-lhe da rivalidade anglo-russa na sia Central e, consequentemente, da espionagem que se desenvolvera.
Naquele momento, no disse a Quenella mais do que o conhecido pela maioria dos mais graduados oficiais do Exrcito e, infelizmente, por um bom nmero de outras pessoas
tambm.
Mas foi o suficiente para que compreendesse que os homens que eram recrutados, treinados e iniciados nesse jogo tornavam-se essenciais  proteo da ndia e  paz
do Oriente.
Rex contou que o "Grande Jogo" possua uma rede de informaes que se estendia por toda a ndia, e que envolvia no s europeus, mas tambm um grande nmero de hindus.
Em um livro secreto do Departamento de Estudos Indianos, havia uma lista de nmeros, que encobria uma variedade de homens e segredos, contra os quais os russos ou
quaisquer outros inimigos do pas tornavam-se frequentemente impotentes ou expostos, quando menos esperavam.
Era comum para Rex no ter ideia da identidade de M.14, com quem estava se comunicando, e nem D.7 tinha a mnima informao sobre G.12.
Mas, algumas vezes, como na ltima noite, em momentos de perigo desesperado, havia algum para ajud-los, algum a quem pudessem apelar, como ltimo recurso.
Rex no tinha ideia de como E. 17 soube de sua identidade. Nunca o tinha visto antes, e era bem provvel que no tivesse mais nenhum contato com ele.
O fato de ter prestado aquela ajuda alertou-o: devia ser mais cuidadoso no futuro.
Sir Terence tinha razo em persuadi-lo a deixar, por uns tempos, a fronteira noroeste e os outros, lugares onde havia atuado com muito sucesso.
Rex ficou falando at a hora do lanche, e um criado trouxe a refeio, fornecida pelo restaurante de uma estao onde haviam parado.
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Quenella levantou-se e abriu a veneziana. Olhou para fora e percebeu que via a multido com um novo interesse, uma nova curiosidade.
Quantos daqueles homens dinmicos e barulhentos, carregados de bagagens ou crianas choramingantes, estariam envolvidos em uma desesperada intriga? Quantos seriam
um corpo desconhecido na beira da estrada? Ou sofreriam torturas, at a morte, por causa de segredos que no podiam revelar?
Rex observou-a, parada, junto  janela. As suaves curvas de seus seios, sua delicada cintura e seu perfil perfeito, quase grego, projetados contra o caleidoscpio
de cores e movimentos, fizeram outra vez o sangue dele ferver e o corao bater, frentico.
Forou-se a olhar para fora e pensou em quanto tempo poderia aguentar aquilo.
Como fingir uma indiferena e uma polidez impessoais?
Sou forte o bastante para combater as ambies russas e confundir os seus esquemas mais inteligentes, pensou, mas conseguirei fazer essa mulher me amar?
Quenella no era uma mulher comum!
Ento, como sempre acontecia quando se sentia perplexo e inseguro, viu as duas guias douradas flutuando contra o cu de Naini Tal. Sobrevoaram a montanha e depois
mergulharam, com velocidade e graa, no vale ensolarado.
A viso desapareceu e Rex se sentiu confiante novamente.
Chegaram a Lucknow, e Quenella no parava de admirar a beleza da terra por onde passavam: os campos de plantao de linho com flores azuis e o verde vibrante da
cana-de-acar.
Havia matas tropicais e pntanos no sop das cordilheiras cobertas de neve.
Apreciou a fumaa perto das cidades, ao pr-do-sol, e as vacas voltando aos estbulos, levantando uma nuvem de poeira dourada.
Agora, via a cidade que seria seu lar. Antigamente, era a capital dos reis de Oudh, uma cidade de intrigas, de vcios e prazeres, para onde acorriam aventureiros
de toda a sia.
Quenella imaginava que devia ser excitante, mas no tinha ideia nem da metade de sua beleza, cheia de contrastes.
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Lucknow era famosa por ter as rosas mais lindas da ndia.  tambm as mulheres.
Mas o que viu primeiro foi um amontoado de casebres de barro e ruas apinhadas de todos os tipos de pessoas e animais selvagens, inclusive tigres acorrentados.
Havia tambm palcios, mesquitas e tmulos, fantasias arquitetnicas vistosas e, naturalmente, os prdios do governo, construdos no meio de uma faixa de rvores,
o que parecia muito britnico.
As residncias oficiais originais sofreram um duro cerco durante um motim. Descascadas e destelhadas, registravam a morte de duas mil mulheres e crianas europeias
que ali tinham se abrigado e morrido. Foram conservadas como um monumento britnico de muito valor, diante do qual ningum ficava impassvel.
Durante os sufocantes dias de junho de 1857, haviam cerca de cinco mil pessoas dentro daquela rea. Tio feroz era o incessante canhoneio e o fogo dos mosquetes
das casas vizinhas, que a zona inglesa -tornava-se realmente insustentvel, e parte dela ruiu.
Ainda assim, os que sobreviveram aguentaram calor, doenas, privaes e ataques do inimigo, at serem socorridos por sir Henry Havelock, a vinte e cinco de setembro
daquele ano.
Aps o motim, o comissrio-chefe mudou-se para uma casa no sudeste da cidade, que era conhecida como Hayat Bakhsh Kothi, ou "Casa de Recuperao", e antes tinha
sido um paiol de plvora. Os ingleses a chamavam simplesmente de Bank SBungalow.
Por estar situada em uma posio privilegiada, era sistematicamente aumentada por cada novo governador.
O telhado de sap foi substitudo; as despensas superiores, aumentadas; varandas construdas e, ento, o Bank s Bungalow tornou-se um palcio de governo atraente
e convencional.
Quenella gostou das cozinhas novas, do salo de baile e das cocheiras. E achou fantsticos os grandiosos quartos, as paredes empapeladas e os soalhos de mrmore.
Admirou particularmente uma cornija da lareira de uma das salas de estar, em estilo oriental, entalhada com crisntemos, sereias e peixes.
Depois de ter inspecionado a casa, ela e Rex foram a uma cerimnia
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no salo de baile. O delegado e outras autoridades da cidade estavam reunidos e uma banda tocava na galeria.
Entraram ao som de trombetas e Rex tomou seu lugar na cadeira de Estado dourada.
Quando a cerimnia acabou, e dezessete tiros ensurdecedores foram disparados l fora, ele e Quenella desfilaram por um tapete vermelho, ao som de The Star of ndia
March, guiando os presentes para uma sala adjacente, onde refrescos e champanhe seriam servidos.
Nos primeiros dias, Quenella visitou os bazares, com seus saris brocados em ouro e prata, cermicas, figuras em argila e narguils, e sentiu uma fascinao que a
fez voltar vrias vezes.
Mas o que mais a emocionou foram os jardins. Esperava que houvesse flores em Lucknow, mas no em tal profuso, to exoticamente lindas ou surpreendentemente coloridas.
Rex, por sua vez, encontrou algo diferente no jardim.
Sempre, na ndia, as inglesas plantaram flores de sua terra, que as faziam lembrar da Inglaterra: amores-perfeitos, narcisos, margaridas e cravos, que no se adaptavam
bem.
Essas flores pareciam sempre um pouco debilitadas, como se fizessem um grande esforo para lutar contra a exuberncia das flores naturais do pas.
Assim mesmo, muitas mulheres continuavam a insistir em plantar suas sementes trazidas da Inglaterra. Estranhamente, no meio delas, Rex encontrou um ramalhete de
boca-de-leo.
Deus sabe por que e por quem tinham sido importadas de sua terra natural, na Amrica do Sul. Mas estavam ali, resplandecentes, desafiadoras, exticas, com suas ptalas
salpicadas de preto, lembrando a Rex as emoes que Quenella despertava nele.
Ao encontr-las, ficou olhando para elas durante muito tempo. Quando voltou para casa, ordenou que algumas das bocas-de-leo fossem colhidas e colocadas num vaso,
em sua mesa de trabalho.
Quenella logo percebeu que era mais difcil encontrar-se com Rex, em Lucknow, do que imaginara.
No navio, tinham estado juntos; no trem, pde conversar com ele.
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Mas, no Palcio do Governo, sempre havia pessoas a recepcionar, ajudantes-de-campo  espera e tantos criados, que j desistira de tentar contar.
Quando saam, sua carruagem era escoltada pela Cavalaria e, invariavelmente, no fim do passeio, havia alguma cerimnia da qual deviam participar.
Entendia que, sendo ele um governador recm-chegado, muitas pessoas importantes precisavam lhe falar, serem recebidas ou entretidas. Chegou  concluso de que o
nico tempo que um governador e sua esposa tinham para ficar juntos era quando dormiam, na imensa cama branca que havia em seu quarto.
A, poderiam, ento, falar ntima e secretamente.
Sentiu-se corar ao pensar nisso e imaginou o que Rex diria, se o convidasse a vir ao seu quarto, depois que ambos tivessem se retirado para se deitar.
Naturalmente, s queria discutir o que tinha lido ou pedir para continuar lhe ensinando os mistrios das religies indianas, como fizera durante a viagem.
Ento, pensou, quase com desapontamento, que ele talvez no estivesse interessado.
Sabia que, toda noite, ficava at tarde trabalhando no escritrio, no segundo andar. L, ele tinha sossego e, mesmo que quisesse interromp-lo, no se atrevia.
Toda manh, um ajudante-de-campo batia  sua porta, com o programa para o dia.
Quenella teve, subitamente, um mpeto de cancelar alguns de seus compromissos e avisar:
"Sua Excelncia e lady Daviot ficaro a ss das cinco s sete horas". Ou, melhor ainda:
"Das dez  meia-noite".
Poderia imaginar a surpresa do ajudante-de-campo, mas no queria correr o risco de passar por uma humilhao: e se Rex no concordasse?
Ele era sempre delicado e agradvel. Quando se encontravam informava sobre o que iriam fazer. Sentia que estava interessado por ela.
Gostaria de sugerir que talvez pudessem tomar o caf da manh juntos.
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Mas estava certa de que, se Rex tivesse vontade de v-la, teria dado um jeito de encontr-la.
Ento, de repente, alguma coisa aconteceu.
Para surpresa de Quenella, soube que, em dois dias, deixariam Lucknow, com destino a Naini Tal, a capital de vero das provncias do noroeste.
Supunha que, como o vce-rei deixava Calcut e ia para Simla, o governador das provncias do noroeste tambm tivesse, no vero, uma residncia mais fresca, mas no
lhe ocorreu que isso acontecesse daquela maneira.
Rex disse, casualmente:
- Acho que voc gostar de Naini Tal. Penso em antecipar a ida para l.
- Naini Tal?
- Iremos para l na quarta-feira. Voc no sabia?
- Ningum me disse. Onde ?
- Desculpe. Foi uma indelicadeza de minha parte no ter comunicado a voc. Peo que me perdoe.
- Desculp-lo por qu?
- Por me esquecer de que voc no sabia que Naini Tal  onde o governador desta provncia vive, durante o vero, a partir do incio de abril.
- E onde fica?
- E algo que, tenho certeza, vai emocion-la. Para mim,  um dos lugares mais perfeitos do mundo.
Quando chegaram a Naini Tal, ela entendeu por que ele gostava tanto de l.
Foi em 1839 que os ingleses descobriram um lago, escondido entre florestas dos cumes do Himalaia, e que, segundo uma lenda local, nascera de um ferimento nos seios
da deusa Naini.
A deusa proibia o lugar aos estranhos e, quando ocorreu um deslizamento, em 1880, soterrando o Victoria Hotel, os Assembly Rooms e a Biblioteca, junto com um grande
nmero de pessoas, os nativos tiveram certeza de que era a punio por terem invadido a terra proibida.
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Sir John Strachey, o ento vice-governador, desafiou a clera de Naini, construindo um novo palcio de governo fora do alcance dos deslizamentos, mil e duzentos
metros acima do lago, em um pico elevado.
Estranhamente, construiu um castelo gtico, com uma fila de torres em pedras amarelas, que, com o tempo, foram cobertas por trepadeiras.
O Palcio do Governo parecia deslocado ali, no meio do Himalaia, onde os vales e as montanhas eram habitados por uma multido de espritos malignos.
Quenella, no entanto, deliciou-se, com os arcos gticos, as escadas de madeira escura, os painis da sala de jantar, decorados com cabeas de veados, e as imensas
lareiras, necessrias, porque  noite sempre esfriava.
Se ficou emocionada com as flores de Lucknow, elas agora pareciam insignificantes, perto das de Naini Tal.
O conjunto todo, onde estava situado o Palcio do Governo, era grande como uma propriedade inglesa. O jardim recendia a lrio-do-vale, os declives eram escarlates
por causa dos rododendros, orqudeas cor de malva seguiam as trilhas e clematites selvagens, brancas, cobriam os arbustos silvestres.
Mas o que deixou Quenella sem flego foram os cumes nevados do Himalaia, elevando-se acima de Naini Tal; e, abaixo, como um cenrio de teatro, as plancies, estendendo-se
por distncias sem fim.
Pela primeira vez, desde que chegaram s provncias do noroeste, Rex teria, agora um pouco de tempo para ela. Haveria ainda recepes, mas, para chegar a eles, os
convidados teriam que fazer uma viagem cansativa, montanha acima, em riquixs ou pneis.
Achou isso bastante divertido e conveniente.
- Ns temos sorte - disse Rex. - Dentro de alguns anos, tenho certeza de que haver carros a motor invadindo nossa privacidade.
- Carros a motor?
Tinha visto alguns na Inglaterra, mas no conseguia imagin-los na ndia. Esperava que Rex estivesse errado.
Acabaram-se, enfim, as recepes iniciais, e ela suspirou, aliviada. Estava livre de compromissos. E, o mais importante, embora no admitisse exatamente isso para
si mesma: podia ficar a ss com Rex.
- Quero lhe mostrar algo - ele disse, um dia. i
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Guiou-a atravs de uma grande quantidade de cosmos cor-de-rosa e hortnsias, que cresciam perto da casa.
Havia carvalhos, faias e castanheiros, mas seus galhos estavam cobertos com musgos e samambaias, e a trilha por onde caminhavam era ladeada por orqudeas.
- A propriedade  muito grande?
- Compreende uma fazenda, que abastece a casa com leite, carnes e aves, e muito acres de floresta e mata, habitadas por veados selvagens e panteras.
Subiram uma elevao e Quenella se viu, de repente, no local onde a terra havia deslizado, formando um precipcio de centenas de metros, que parecia no ter fim.
 sua frente, a fantstica viso da silhueta do Himalaia contra o cu, os picos envoltos em nuvens, o sol cintilando na neve.
Rex disse, emocionado:
- Uma vez, quando estive aqui, havia duas guias douradas no cu. Desde ento, tornaram-se parte de mim. Quando estou em perigo, ou tenho que tomar uma deciso difcil,
penso nelas.
- E isso tem ajudado?
- Elas tm me dito o que fazer. E nunca erraram. Fez uma pausa e olhou para ela:
- Eu as vi, claramente, quando estava decidindo se iria ou no  casa de seu do, para encontr-la.
- Elas disseram... que fosse?
Quenella no sabia por que, mas estava ficando difcil falar. Sentia-se quase sem ar, com um n na garganta.
- Elas disseram que era meu destino.
- Acho que. .. entendi.
- Por qu?
- Acho que desperdicei um bom tempo, tendo medo, odiando voc.
- Eu compreendia o que voc estava sentindo.
- Eu sei, e isso me deixava zangada.
- E agora?
Sorriu:
- Agradeo s guias por terem dito a voc - o que fazer.
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Ficaram os dois, por algum tempo, olhando para o sol batendo nos picos das montanhas.
Era quase como se estivessem se comunicando sem palavras, e Rex tinha medo de quebrar o silncio.
Ento, enquanto desciam de volta, e ele pensava nas coisas que gostaria de lhe dizer, viram,  distncia, um ajudante-de-campo que se dirigia ao encontro deles,
atravs das rvores.
- -Diabos - praguejou Rex, e o corao de Quenella bateu mais depressa.
Olhou para trs. O sol ainda iluminava os picos; a viso ainda era deslumbrante, mas o encanto tinha sido quebrado. Carrancudo, Rex recebeu a notcia de que um importante
visitante havia chegado e devia ser recebido com todas as cerimnias.
No primeiro dia em que conseguiu sair sozinha do Palcio do Governo, Quenella voltou ao lugar onde Rex a havia levado.
Aconteceu depois de uma festa montona, e gostaria de pedir que ele a acompanhasse, mas sabia que estava em conferncia.
Saiu, levando um guarda-sol, saboreando a delcia de se sentir livre do rgido protocolo.
Cantarolava baixinho, enquanto passava por entre as orqudeas e as rvores cobertas de trepadeiras.
Havia tambm as flores escarlates da Dhak, a famosa rvore Semal, as malvas de Bauhinias. Um cenrio perfeito, pensou.
Mas perfeito para qu?
Ento, percebeu, como se o visse danando entre os canteiros, que Krishna, o deus do amor, estava ali.
Mas foi um homem de carne e osso que encontrou, ao chegar  beira do precipcio, sentado  sombra de um dos cedros antiqussimos.
No teve medo. Ficou apenas surpresa, porque sabia que no era permitido a ningum entrar nas propriedades do Palcio do Governo.
Ento, viu que era um saddbu.
J tinha visto vrios deles e era capaz de reconhec-los imediatamente: o manto amarelo enrolado cuidadosamente no corpo, deixando um dos ombros de fora; a cabea
raspada, da maneira como Rex disfarara E.17, e um ar de santidade, de estar longe do mundo.
106

Fascinada, dirigiu-se a ele, deixando a trilha e caminhando entre as rvores.
Viu que estava em concentrao profunda, ou rezando, com os olhos fechados. Esperou, o instinto lhe dizendo que ele sabia de sua presena, embora no tivesse feito
nenhum barulho.
Parecia ter uns cinquenta anos, mas podia ser muito mais velho. Quenella aprendera que a meditao e uma vida asctica, especialmente entre as neves, fazia com que
os homens parecessem muito mais jovens.
Finalmente, depois de esperar um longo tempo, o homem olhou para ela.
- Perdoe se o perturbo, Santidade - disse, em urdu -, mas gostaria de lhe falar.
- Fale. Faa a pergunta que est em seu corao.
- A pergunta? - balbuciou Quenella, surpresa. - Estou procurando entender. .. saber de muitas coisas.
- Voc s achar o que procura atravs do amor!
As palavras saram lentas e pareciam decisivas. O saddhu continuou:
- Voc est olhando para as montanhas. Est certa, mas precisa voltar-se tambm para as plancies. As duas se complementam. Essa  a lei. Esse  o caminho para a
luz.
- Acho que. . . no. . . entendo.
O saddhu olhou novamente para ela e seus olhos escuros pareceram penetrar no mais ntimo de sua alma.
- Voc entende. E o amor nasce fora do medo.
Fechou os olhos, e Quenella entendeu que a conversa tinha acabado.
Por um momento, hesitou. Sabia que ele no a havia esquecido, mas no tinha mais o que dizer, e no devia perturb-lo.
Enquanto voltava, pensava naquela frase:
"O amor nasce fora do medo!"
Realmente, os medos que a dominavam na Inglaterra haviam desaparecido e no pensava mais neles. Dava-se conta de que h muitas semanas no se lembrava do prncipe.
O dio e o terror que imaginava sentir pelo resto da vida tinham sido vencidos pelas novas experincias que estava vivendo na ndia e, acima de tudo, por Rex.
107

Pensava nele sempre. Quando ia para a cama,  noite, e quando acordava, pela manh.
De repente, teve um desejo urgente de estar com Rex, ouvir sua voz e fazer com que a notasse. Foi um impulso to forte, que voltou correndo para o palcio.
Em vez de seguir a trilha, tomou um atalho atravs das rvores. Corria em meio a uma profuso de flores que, em qualquer outra ocasio, a teriam encantado.
Mas, agora, s queria achar Rex, e percebeu que estava perdida.
Pensou que, talvez, fosse melhor voltar e achar a trilha de orqudeas, mas estava impaciente. Por isso, continuou avanando por entre as moitas.
Ento, ouviu vozes.
Instintivamente parou e escutou um homem dizer, em urdu:
- Magi vai atacar logo.
No foi s a palavra "atacar" que deixou Quenella em estado de alerta, mas a maneira como falavam, quase sussurrando.
- Como ele conseguir?
- Amar estar esperando por ele no poro.
- Os guardas vo ver.
- No, ele estar ajudando Sadhin com a madeira, e os sentinelas idiotas no vo notar que so dois carregadores, e no um.
- Muito esperto!
- Os que do as ordens so espertos!
-  verdade. E pagam bem!
Houve um silncio e Quenella prendeu  respirao. Ento, o primeiro homem disse:-
- Como Amar vai achar lorde Sahib?
- Muito fcil. Quando os convidados sarem ele ir para o escritrio. O fogo no est aceso e Sadhin entrar pela lareira.
- Muito inteligente, muito inteligente!
- O caminho foi preparado h dois dias, j.
- Plano inteligente, plano inteligente!
Os dois homens deram um risinho, e Quenella percebeu o significado do que tinha ouvido. Era outro movimento do "Grande Jogo" e Rex
108

ia ser assassinado. Desta vez, os russos tinham subornado dois homens que trabalhavam no palcio.
Quase sem respirar, andando, p ante p, saiu de seu esconderijo,  procura da trilha de orqudeas.
Estava a salvo agora, mas continuava perdida e comeou a ficar em pnico.
No havia qualquer ponto de referncia reconhecvel e no via nem a trilha que a levaria ao palcio, nem qualquer sinal dos altos telhados do prprio palcio.
Freneticamente, avanava entre os arbustos, indo e voltando perdendo um tempo precioso. Os homens sabiam que Rex iria para o escritrio s trs horas, e no faltava
muito.
Se conseguisse atras-lo, esfriaria e a lareira seria acesa. Assim, o assassino no poderia entrar.
Tinha a impresso, embora no conhecesse a sala, de que a escrivaninha de Rex ficava junto  janela, o que significava que a lareira podia tanto estar  sua direita,
 sua esquerda ou atrs dele.
Seria fcil para qualquer um-atac-lo por trs.
Estava certa de que o homem ia usar uma faca; uma grande e pontuda faca, como aquelas que tinham matado tantos soldados ingleses, e que feriam mais do que balas.
- Rex Rex!
Precisava encontr-lo, mas estava perdida; perdida naquilo que naquele momento se transformara em um pesadelo de flores, muito mais um inferno do que um cu de beleza!
Ento, de repente, quando j pensava em gritar socorro, viu a trilha de orqudeas e, adiante, as torres da casa!
Salvar Rex era uma questo de minutos.
Jogando fora o guarda-sol, levantou as pontas de suas saias e comeou
a correr.
Correu mais rpido do que nunca, sabendo que tinha que chegar ao escritrio do governador, onde o marido estaria, curvado sobre seus papis, antes que a morte saltasse
sobre ele.
Havia um imenso corredor que percorria toda a extenso do segundo andar, e o escritrio ficava no fim dele, do lado oeste, isolado do
resto da casa.
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No havia tempo para pedir ajuda, nem para explicar aos sentinelas o que estava acontecendo. Alcanou a porta da frente entrou no vestbulo, ignorando os criados
que olhavam para ela, espantados.
Sabia muito bem. como seria difcil explicar a necessidade de sua pressa, assim como sabia que iam achar ininteligvel seu urdu, falado numa voz entrecortada.
Correu pelo corredor que levava ao escritrio, jogou-se contra a porta e viu que a sala estava deserta!
Rex no estava ali!
Por um momento, sentiu-se aliviada. Mas seu sexto sentido fez com que fechasse a porta rapidamente, voltando ao corredor.
Rex estava salvo, mas o homem que queria mat-lo ia tentar outra vez.
Desesperada, com o corao disparado e os lbios secos, tentou imaginar onde o marido estaria, quando ouviu passos. Rex vinha andando pelo corredor, despreocupado.
Sem pensar no que estava fazendo, tendo apenas a certeza de que ele estava salvo, que estava vivo e que ela devia preveni-lo, correu em sua direo.
Jogou-se em seus braos e apertou-se contra ele, o rosto molhado de lgrimas:
- Eles querem matar voc! Oh, Rex, h um homem esperando para mat-lo! ,
Espantado, Rex abraou-a, fazendo com que ficasse mais perto, enquanto Quenella continuava:
- Ele est escondido na lareira, esperando que voc fique sozinho. Ele foi pago para isso.
Rex apertou-a e disse, calmamente:
- Est certo. Pare de tremer e conte, devagar, o que aconteceu. Por causa do terror, porque os braos dele eram reconfortantes e
porque no podia entender o que estava sentindo, Quenella comeou a soluar.
- No se mova - disse Rex -, apenas me conte o que sabe.
- Fiquei perdida no bosque e ouvi dois homens conversando.
- Em urdu?
- Em urdu, mas consegui entender.
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- Continue!
- Eles disseram que algum pagou um homem chamado Amar para entrar aqui, quando Sadhin trouxesse a lenha. Ele devia chegar ao seu escritrio atravs da lareira.
J est tudo preparado, h dois dias. . .
Parou, porque sentia dificuldade em respirar, e Rex disse, junto ao seu ouvido:
- Calma.
- Ele ia matar voc. Acho que com uma faca.. . enquanto voc estivesse no escritrio. Eu estava horrorizada, pensando que, talvez, j fosse muito tarde.
- Mas no . Agora, escute: v at a sala dos ajudantes-de-campo e diga a quem estiver l para mandar imediatamente dois soldados para guardar a porta do poro.
Se ele vai entrar pela lareira, o poro  o nico lugar onde pode estar escondido.
- E mandar outros soldados para c?
- Depois, quando eu chamar por eles. Arregalou os olhos e gritou:
- Voc est indo. .. para l... sozinho?
- Tudo dar certo.
- No! No! Apertou-se contra ele:
- No posso suportar isso. Ele vai mat-lo. Por favor, Rex, deixe os soldados irem, no voc! Posso estar errada. Talvez ele tenha um revlver.
- Posso cuidar de mim!
- Voc est caminhando para o perigo. Eles querem mat-lo, e se o fizerem, no poderei suportar.
Sentiu que os braos dele a apertavam com mais fora.
- Confie em mim.
- Por favor, tenha cuidado.
- Eu terei. Porque voc me pediu!
Soltou-a e, quando viu aqueles olhos cheios de lgrimas, suplicantes, no pde mais se controlar: seus lbios procuraram os dela.
Durou s um segundo. com medo do que tinha feito, ordenou:
- V  sala dos ajudantes, como lhe disse! - e se afastou.
Quenella quis se grudar a ele, pedir-lhe, mesmo que fosse de joelhos, para no fazer aquela loucura. Mas sabia que Rex no ouviria. Correu, desesperada, para cumprir
suas ordens, tendo a certeza de que o amava e de que, se o perdesse agora, perderia tambm a coisa mais importante de sua vida.
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CAPITULO VII

Ao deixar Quenella, Rex dirigiu-se, sem pressa, ao escritrio.
Abriu a porta, entrou, e ficou parado por algum tempo. Ento, disse, num tom alto e irritado:
- Diabos!
Dirigiu-se  porta, bateu-a com fora, mas continuou dentro da sala, examinando-a.
A escrivaninha estava defronte  janela, com a lareira  esquerda. Previu que, quem estivesse ali para mat-lo, ficaria no canto esquerdo, de onde poderia ver sua
mesa de trabalho.
Aps um momento de silncio, Rex comeou a caminhar, sem fazer barulho, ao longo da parede, onde era impossvel ser visto da lareira.
No "Grande Jogo", uma das primeiras coisas a aprender era andar sem ser ouvido.
Isso era particularmente fcil para os hindus, que estavam acostumados a andar descalos, mas muito mais difcil para os ingleses.
113

Em poucos segundos, alcanou a cornija da lareira. Devagar, tirou do bolso uma pequena moeda e jogou-a do outro lado da sala.
Era um velho truque, mas que funcionava.
O homem que esperava dentro da lareira esticou a cabea para fora, para ver o que era aquele barulho e, no momento seguinte Rex agarrou-o pelo pescoo, estrangulando-o,
enquanto um golpe doloroso o obrigou a largar a faca afiada que trazia.
Quenella alcanou a sala dos ajudantes-de-campo, entrou e encontrou apenas o capito Anderson, que fazia parte do mesmo regimento de Rex.
Estava sentado, lendo, e se Quenella no estivesse to agitada, certamente ficaria interessada em saber que era um livro sobre o Tibete.
Assim que ela parou na porta, ofegante, as lgrimas ainda nos olhos, o capito levantou-se.
- Excelncia. . .
- O senhor deve mandar. . . dois soldados para a porta do... poro e no deixar que. .. ningum escape! Rpido! Rpido! No h tempo a perder!
O capito Anderson no fez perguntas, apenas obedeceu as ordens, que sabia virem do governador.
Rex escolhera muito bem seus ajudantes-de-campo.
Quenella seguiu-o com o olhar, o corpo tenso. Como poderia saber, como poderia adivinhar que o amor a faria sentir uma agonia assim?
Devagar, quase se arrastando, caminhou de volta pelo longo corredor por onde viera.
Aproximou-se do escritrio de Rex e parou junto da porta, alerta, rezando para escutar a voz dele e saber que tudo estava bem. O silncio seria um mau-agouro, porque
os mortos no falam.
Ento, quando j estava entrando em pnico, certa de que Rex jazia ferido de morte com uma faca cravada no peito, ouviu, finalmente, sua voz adorada.
No conseguia entender o que dizia, mas reconheceu seu tom calmo, e chorou novamente. De alvio e felicidade.
Rex continuava falando e, de vez em quando, outra voz juntava-se  dele, em tons lamuriemos de um homem pedindo perdo.
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- Por que no o mata? - perguntou, com raiva, mas logo ficou
chocada, ao se perceber to sedenta de sangue.
Mas, se a questo era a vida de Rex ou a de outro homem, no havia escolha.
Um homem ou cem, podiam morrer todos, desde que Rex vivesse.
Poucos minutos depois, ouviu os passos do capito Anderson, que se
juntou a ela, enquanto Rex abria a porta do escritrio. Tudo o que
Quenella queria lhe dizer morreu em seus lbios. S conseguia olhar
para ele, como se fosse uma apario vinda dos cus, enviada para acabar
com seu medo.
- Venha, Anderson! - disse Rex ao capito e, quando este obedeceu
Kenella seguiu-o para dentro da sala.
No cho, estava uma criatura miservel, as mos amarradas com o
prprio turbante, amordaado com um leno.
Rex fez um gesto em sua direo.
- Leve embora este homem e prenda-o! Ser acusado de roubo, assim
pomo o lenhador que o ajudou a entrar no poro. Dois jardineiros, Daud
e Hari, devero ser presos e tambm acusados de conspirao para furto.
Devero todos ficar incomunicveis.
- Entendi, excelncia!
- Mantenha a maior discrio possvel sobre essas prises, E ordene que dois cavalos estejam preparados. Levarei Azim comigo.
Quenella olhou para ele, atnita.
Sabia que Azim era seu criado particular, um homem que estava com ele h muitos anos.
O que iria fazer? Por que levar Azim junto?
A pergunta ficou em seus lbios, enquanto o capito Anderson, depois de verificar se o homem estava bem preso, virou-se e saiu.
Agora, Rex olhava para ela, sorrindo. Levou-a para fora do escritrio, fechando a porta.
- Onde voc est indo? Por que precisa de um cavalo? - comeou, mas Rex interrompeu.
- Tentarei ser o mais rpido possvel. Talvez me atrase para o jantar, mas ningum pode saber que no estou em casa!
- Rex! Rex!
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- Pedi que confiasse em mim. Voc desejava tomar parte no "Grande Jogo", no ?
Ela quis protestar. No dessa maneira! Ficar sem saber o que estaria acontecendo, imaginando que ele estava indo em direo ao perigo, deixando-a para trs!
Mas antes que pudesse dizer alguma coisa, ele j havia partido.
Rex dirigiu-se para uma sala que nunca era usada. Levava a uma escada, que, por sua vez, dava para seu prprio dormitrio. Assim, podia entrar sem ser notado.
Por um momento, Quenella sentiu que tudo aquilo era demais. Que no conseguiria aguentar.
No podia fazer o que ele lhe pedia, queria mesmo era correr atra de Rex e dizer que a levasse, ou contasse onde ia.
Aquela dvida, aquele medo que dilaceravam seu corao, como uma faca afiada, eram insuportveis.
Ento, lembrou-se de que Rex confiava nela e que no podia decep cion-lo; assim, caminhou vagarosamente, com dignidade, para o
vestbulo principal e subiu as escadas,
em direo  sua prpria sala de estar.
No havia ningum e nem sinal de Rex, naquele aposento normalmen te ocupado pelo vice-governador e sua esposa.
Consitia em um grande quarto de dormir, usado por ela, fresco e bran co, com trs janelas que se abriam para o jardim e uma bonita vista
das montanhas.
Ficava ao lado e se comunicava com o quarto do governador, embora ela nunca tivesse entrado l.
Quenella sentou-se por um momento; depois, levantou-se e ficou olhando pela janela, no vendo nada daquela beleza que a encantou, desde que chegou a Naini Tal, mas
somente Rex, cavalgando desprotegido em direo ao perigo.
Sabia, sem que ningum precisasse dizer, que ele ia procurar o homem que planejara sua morte.
O homem de quem ela suspeitava ser, ou um russo, ou algum pago por eles, para quem a morte de Rex significaria uma vitria sobre todos os ingleses.
A agonia desse pensamento fez com que se sentisse desfalecer. E pensar no quanto havia rezado a Krishna para trazer-lhe um amor!
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No sabia, ento, que esse amor poderia ser uma faca de dois gumes.
No era um xtase, como imaginara, mas algo muito diferente. Agora,
ela realmente entendia o que o saddhu quis dizer:
"Voc precisa tambm descer s plancies".
Era onde se encontrava agora. Perturbada, e dilacerada pelo sofrimento humano, pelas emoes humanas, pelo amor.
Ento, pde ouvir a voz de Rex:
- Confie em mim, como confio em voc!
Um pathan, transportado por um riquix alugado nos confins da cifdade de Naini Tal, cruzou a porta de uma hospedaria imunda.
Por baixo do turbante azul e empoeirado, viam-se seus olhos de falco.
Vestia uma manta longa e encardida, por sobre calas amarradas nos
tornozelos, e uma tnica.
Caminhava com a graa silenciosa de uma pantera preparando o bote. fe O cinturo de algodo prendia suas calas e a tnica e tambm servia
para guardar uma pistola,
duas facas e um grande tulwar, punhal entalhado e to afiado que podia cortar em dois uma pena
flutando no ar. Tinha duas rosas vermelhas atrs das orelhas e
que, mesmo assim, no desfaziam a impresso de que a nica finalidade ou prazer de sua Brada era dominar a morte.
Caminhou at o gordo e preguioso proprietrio da hospedaria e perfguntou, com uma voz estranhamente gutural: - Em que quarto posso achar o sahib estrangeiro?
O homem gordo olhou para ele, com suspeita.
- Ele o espera?
O outro fez um gesto com a cabea e o proprietrio apontou para as frgeis escadas de madeira.
- Nmero dois.
O pathan olhou  volta do pequeno e sujo vestbulo e ento subiu as escadas, com a arrogncia que caracterizava sua raa.
Aps dez dcadas de ligao com os pathans, os ingleses ainda no conseguiam entend-los.
"Cruis, ladres covardes, assassinos traioeiros e de sangue frio", escrevera um oficial da fronteira. "Nada conseguir mudar esses selvagens maldosos e desavergonhados."
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Mas algum via esses nativos de forma diferente:
"O pathan  bravo, soberbo e religioso, de-acordo com seus princpios Tem um grande senso de humor e  um amante dos esportes."
O visitante entrou no quarto nmero dois, sem bater.
Deitado na cama estava um homem que era, obviamente, muito mais bem-educado do que sugeria sua aparncia.
Suas roupas tinham sido escolhidas de propsito para faz-lo parecer o turista que pretendia ser.
Em cima da mesa havia algumas poucas telas e uma caixa de pintura. Era uma velha desculpa para percorrer as cordinheiras do Himalaia: a palavra "artista" podia encobrir
uma srie de outros interesses.
O patkan fechou a porta e o homem levantou-se.
Tudo terminou rapidamente. S na manh seguinte  que o proprietrio, intrigado com o fato de seu hspede no ter pedido nada para comer, entrou no quarto e descobriu
que o sahib estrangeiro tinha sofrido um "ataque do corao" e jazia morto na cama.
No havia marcas de violncia em seu corpo, nem nenhum sinal do pathan, o qual, certamente, no deixara a hospedaria pela escada do vestbulo.
Na verdade, o segundo andar de uma construo baixa no fica muito longe do cho!
Quenella no conseguiria se lembrar, depois, do que dissera aos convidados que chegavam, e que eram apresentados a ela pelo capito Anderson.
Naini Tal, ela sabia, tinha a reputao de uma vida luxuosa: os coquetis que eram servidos antes do jantar eram deliciosos, e seus convidados pareciam apreciar
o vinho.
Tinha-se vestido como que em um sonho, deixando que a criada arrumasse seu cabelo e escolhesse o traje e as jias que usaria.
Conseguia apenas olhar fixamente para o espelho, no vendo nada mais do que o rosto de Rex.
Ele a havia beijado, mas sentia que tinha sido apenas um gesto tranquilizador, como se fazia com as crianas.
Desejava muito mais de seus lbios. . . e dele.
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Na sala de estar, foi quase impossvel se concentrar em alguma coisa Rdo que estava sendo dito. Os convidados riam e aparentemente se sentiam  vontade, sem
notar que a anfitri agia automaticamente, do jeito ique todos esperavam dela.
Tentou no olhar, a cada segundo, para o grande relgio sobre a lareira. Como o tempo podia passar to devagar?
O jantar j estava quase um quarto de hora atrasado. Os criados, vestidos em branco, escarlate e dourado, continuavam a encher as taas. p No fez nenhum movimento
em direo  sala de jantar, onde a imensa mesa estava preparada, com toalhas adamascadas, servio de prata e guardanapos cuidadosamente dobrados em forma de leques
ou pssaros exticos.
O que teria acontecidocom Rex? Por que no voltara? Como pde deixar que partisse, sem saber ao menos para onde e o que pretendia fazer?
Sentia como se houvesse uma pesada pedra em seu peito, pesando e pesando cada vez mais, impedindo-a de respirar.
De repente, um criado abriu a porta e ali estava ele, vestido a rigor, exibindo as condecoraes e sorrindo.
Por um momento, seus olhos se encontraram, e ela percebeu que tudo Restava bem.
Ento, quando os convidados foram apresentados e ele lhe ofereceu o brao, dirigiram-se todos  sala de jantar.
Rex no disse nada, mas apertou a mo dela, e Quenella estremeceu com esse contato.
Aps a chegada de Rex, o tempo voou. Quando a noite terminou, ela sentiu que, embora no conseguisse se lembrar de uma s palavra que tinha dito, aquele havia sido
o melhor jantar que ofereceram.
Ela e Rex subiram as escadas, lado a lado, em silncio. Ao chegarem  sute dela, disse, com medo de que ele quisesse apenas desejar boa noite:
- Eu preciso saber.. . voc precisa. . . me contar.
- Voc me daria tempo para trocar de roupa?
- Sim,  claro.
A criada ajudou-a a tirar o vestido e as jias. - Posso pentear seu cabelo, excelncia?
119

- No, hoje no.
Vestiu um robe de cetim, enfeitado com rendas e pequenos laos de veludo azul.
- Agora, pode ir, Nalini - disse Quenella. Hoje vou dormir mais tarde.
A criada apagou as luzes, deixando aceso apenas o abajur ao lado da cama, e saiu.
Quenella ajoelhou-se no tapete de pele branca e colocou algumas achas de lenha no fogo.
Neste quarto, pelo menos, pensou ela, ningum pode se esconder na lareira.
No entanto, no era de medo que seu corao batia.
A porta se abriu e Rex entrou, vestindo um robe de chambre.
- Voc est bem? No est... ferido? Ele sorriu com a pergunta.
- Como pode ver, voltei para voc, inteiro, como pretendia.
- E o homem? Voc o encontrou?
- Sim, encontrei!
- E o que aconteceu?
-  importante?
Chegou um pouco mais perto.
- Voc salvou minha vida, Quenella, e pensei que, primeiro, devia agradecer por isso!
- Foi sorte, pura sorte - disse ela. - Suponha que eu no tivesse me perdido! Suponha que no tivesse escutado aquela conversa.
- Foi a sorte que nos fez ficar juntos? - perguntou Rex. - Foi a sorte que fez com que nos casssemos? Que voc fosse exatamente o tipo de mulher que sempre procurei?
- Isso. . .  verdade?
- Voc acha que eu diria alguma coisa que no fosse verdade, e da qual no tivesse absoluta certeza?
Por um momento, olharam-se, em silncio.
- Eu tenho medo - disse Rex, inesperadamente.
- Medo?
- De amedrontar voc, se lhe disser o que tenho no corao.
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- Voc.. . no precisa. . . ter medo.
- Est certa disso?
istava to certa que se atirou nos braos dele.
- Beijei seus lbios por gratido - disse Rex, com voz profunda mas agora quero beij-la por outros motivos.
- E. . . quais so?
No respondeu. Nem a beijou logo. Correu os dedos pelo queixo dela, tocou-lhe as orelhas, descendo at o pescoo.
Isso provocou uma sensao desconhecida, que parecia queimar seu corpo e impedi-la de respirar.
- Voc  muito bonita! - disse ele -, mas no  s por isso que me excita!
- Eu... excito voc?
- Mais do que possa imaginar. Quase fiquei louco nestas ltimas
semanas, por no poder toc-la e abra-la assim.
- Tambm o queria. Mas no compreendi isso at hoje, quando soube que corria perigo de morte e que no poderia avis-lo a tempo. Apenas por um momento, olhou-as 
nos
olhos, e ento seus lbios uniram-se aos dela. Ao toc-lo, sentiu o fogo que existia por baixo da neve, queimando
com tal fria e violncia, que consumia tudo, exceto a necessidade que um sentia do outro.
Estavam juntos, tinham-se encontrado, depois de muito tempo. Mas, como as chamas cresciam mais e mais, era impossvel pensar, apenas sentir. ..
Bastante tempo depois, quando as achas de lenha na lareira j estavam se transformando em cinzas, Quenella disse:
- Pensei que nunca pudesse ficar a ss com voc, porque sempre h gente entre ns. Eu tinha inveja dos outros governadores e de suas esposas, que conseguiam
ficar sozinhos em suas camas. . - Isso  uma coisa que vamos partilhar no futuro, e acho, meu amor, que merecemos mais. - O que voc quer dizer?
- Prometeram-nos, quando ainda estvamos na Inglaterra, uma luade-mel em Lucknow. Penso que merecemos ter uma em Naini Tal.
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- Uma lua-de-mel?
- Eu adoraria qualquer coisa que significasse ficar junto com voc que pudssemos conversar bastante e que voc pudesse me amar.
- Ns perdemos muito tempo, e agora pretendo ter minha esposa s para mim.
- Eles vo deixar?
- Eles? Quem so eles? Sou ou no sou o governador destas provncias?
Ela deu um sorriso.
- Ento, talvez, Vossa Excelncia possa me contar o que pretende fazer.
- com muito prazer, madame. Nas prximas duas semanas, estaremos ambos sofrendo de um tipo de febre primaveril, que nos impedir de assumir qualquer compromisso.
Quenella aninhou-se um pouco mais no peito dele. ,:
-  uma febre que d a sensao de chamas, queimando dentro da gente?
- Exatamente!
- E provoca naqueles que sofrem dela um estranho aperto na garganta, que faz com que fique difcil falar, a no ser por sussurros?
- Isso mesmo!
- E deixa as plpebras pesadas e os lbios trmulos?
- Um sintoma inconfundvel! O que mais eu a farei sentir?
- Muito mais.. . muito. .. mais! Senti como se voc me carregasse para o alto das montanhas, onde ningum tivesse estado antes, a no ser os deuses!
Ficou em silncio, e depois perguntou:
- Voc sentiu alguma coisa assim?
- Para mim, minha querida, nosso amor  um xtase indescritvel e nunca me senti to feliz, to realizado.
- Oh, estou feliz. . . muito feliz. . . muito feliz!
- Isso tudo pode ser resumido em uma s palavra: amor!
- Eu o amo! Eu o amo!
- Voc tem certeza de que no a magoei ou a assustei? Quero ser muito gentil, cortej-la, de maneira que voc nunca tenha
medo.
122

- No tenho medo. No sabia que algum pudesse ser completamente consumido por esse fogo e essa foi a coisa mais perfeita... a coisa mais maravilhosa que poderia
ter acontecido!
- O fogo do amor!
-  assim que ele .
Tirou-lhe os cabelos do rosto e olhou para ela, vendo, enquanto as ltimas luzes da lareira se apagavam, que os olhos e os lbios de Quenella o convidavam.
- Tenho muito que lhe ensinar, minha linda flor, e h muito o que voc precisa me ensinar tambm.
- Sobre o qu?
- Sobre nossas almas, nossos espritos e nossos corpos. Estivemos, ns dois, lutando sozinhos. Agora, existe a alegria de pensarmos e sentirmos a mesma coisa, de
encontrarmos nosso caminho juntos, em direo ao pico mais alto.
- Voc disse que era possvel alcanar o impossvel - murmurou Quenella -; e estava certo.
Calou-se com beijos ardentes, que fizeram seu corao bater freneticamente,
- Preciso deix-la dormir, agora, minha querida. Sairemos bem cedo, amanh, e precisaremos cavalgar.
- Onde vamos?
- H muitos lugares que quero lhe mostrar, lugares sagrados, lugares que no so conhecidos pelos visitantes comuns de Naini Tal. E s se pode chegar l a cavalo.
- Poderemos ir sozinhos?
- Se voc estiver preparada para encontrar os espritos e os deuses que vivem nas montanhas, ento prometo que no precisaremos de nenhuma escolta.
Quenella deu um suspiro de felicidade.
- Oh, Rex, nunca pensei que alguma coisa to maravilhosa pudesse estar esperando por mim. Mas no gostaria que voc se arriscasse, mesmo para me fazer feliz. Tenho
medo de perd-lo. Voc  o meu mundo todo: o cu, as montanhas e. . . as plancies.
Hesitou ao dizer as ltimas palavras, e Rex perguntou:
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- Por que disse "plancies" dessa maneira?
- Por causa do que o saddhu me disse outro dia.
- Que saddhu?
- Ele estava sentado no jardim e disse que eu procurava as montanhas, mas que devia tambm descer s plancies. Acho que quis dizer que as sensaes fsicas, o fogo
que voc est me dando, so to importantes como as sensaes espirituais.
- Tambm acho.
- O saddhu disse que as montanhas e as plancies se complementam e que isso era o caminho. .. caminho para a luz!
- Que ns acharemos juntos!
- Oh, querido, querido Rex! Como poderia acreditar, ao deixar a Inglaterra, que isso fosse acontecer comigo?
- E  apenas o comeo. Temos muito mais o que fazer juntos. Quis beij-la, mas ela escondeu o rosto.
- H algo que gostaria de lhe dizer.
- O que ?
Viu que procurava as palavras e esperou. A voz de Quenella parecia msica, ao dizer:
- Os livros que voc me deu. .. falavam.. . que as mulheres hindus. . . adoravam seus maridos porque eles.. . eram... para elas. . . Krishna, o deus do amor.
-  verdade.
- E o ato do amor... era... dessa forma... algo divino. Rex no respondeu e ela continuou:
-  o que eu sinto! Para mim, voc  Krishna. O amor que voc me deu. . .  santo, e eu adoro voc.
Rex abraou-a to forte, que ela quase no conseguia respirar.
- Minha querida, minha preciosa e maravilhosa esposa, voc no precisa dizer essas coisas. Sou eu que devo vener-la, porque  perfeita.
Ento, o fogo dentro deles explodiu em chamas.
Era ainda bem cedo, quando Rex ajudou Quenella a montar no cavallo que esperava defronte  porta do palcio.
O capito Anderson acompanhava a partida.
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- Os criados devem trazer as refeies em burros de carga e deix-las sob as rvores, abaixo da cascata Naini - ordenou Rex. - Devero estar l ao meio-dia e depois
sumir de vista, s voltando para recolher o que foi deixado duas horas mais tarde.
- Ordenarei que seja feito isso - respondeu o capito.
- Deixe bastante claro que no haver compromissos oficiais nessas duas semanas - continuou Rex -, e voc pode resolver o que aparecer de mais urgente.
O capito hesitou, por um momento, antes de perguntar:
- Se eu estiver em dvida sobre alguma coisa, posso discutir com Vossa Excelncia esta noite?
- No! Vamos jantar na sala de estar particular de minha esposa, apenas com Azim nos servindo. Para todos os efeitos, no estaremos em casa. Sem excees!
- Muito bem, Excelncia!
O capito Anderson sorriu e completou:
- Boa sorte, meu senhor. E, embora atrasadas, minhas sinceras congratulaes!
- Obrigado, Anderson.
Um dos jardinheiros aproximou-se, carregando uma grande cesta de rosas recm-cortadas e um ramalhete de bocas-de-leo.
- D-me o ramalhete! - disse Rex, prendendo as flores na sela. Saram cavalgando, sendo saudados pelo capito Anderson e pelas duas sentinelas postadas  porta do
palcio.
Somente quando atingiram a trilha de orqudeas, que conduzia atravs do parque,  que Quenella perguntou, curiosa:
- Por que voc quis as bocas-de-leo?
- Porque  a flor com que sempre comparei voc. Para mim, simboliza a pureza e tem um toque selvagem, como o tigre.
Ela entendeu o que Rex tentava dizer e corou.
- Mas o que voc vai fazer com elas?
Rex olhou para as montanhas cobertas de neve, que eram vistas atravs dos troncos floridos das rvores, e depois para Quenella.
- Pretendo deix-las no primeiro santurio que encontrarmos, como oferenda ao deus do amor!
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Seus olhos se encontraram. Ela estava muito atraente naquele cenrio de- flores brancas, escarlates e azuis.
- Rezei para que Krishna me desse o amor - disse
Quenella, suavemente. - Como posso agradecer?
- Ns teremos toda a eternidade, minha querida, para fazer isso.
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Fim
